RAUL BRANDÃO

OS POBRES

Precedido de uma CARTA-PREFACIO

DE

GUERRA JUNQUEIRO

LISBOA

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

SOCIEDADE EDITORA

Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Typographia R. Ivens, 45 e 47

1906

I

O ENXURRO

Vem o inverno e os montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra. As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.

É como um rôlo mysterioso e profundo que vem d'um mar desconhecido. E a chuva começa. É um ruido dôce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raizes á mostra, arrasta n'alluvião o humus, as folhas seccas das arvores, os cadaveres dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.

Assim a vida. É um rio de lagrimas, de brados, de mysterio. A onda turva põe as mais fundas raizes á mostra, a torrente leva comsigo de roldão a desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esqualidas dos que soffreram encontram emfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade...

Vêde... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida, mas sou um principe. De que terra? direis. -- Do sonho. E assim n'este predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a escutar... Ouço um rio que os mais não sentem. Cada creatura nascida traz comsigo uma fonte, fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. É ella que tira á vida a sua seccura. Em certas creaturas pobres e simples quasi se ouve essa agua correr e tão amoravelmente, que dá vontade de nos chegarmos á sua sombra. É emoção. Minae, não na deixeis seccar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos.

N'este casarão onde móro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Préga o inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...

São meus visinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam ás vezes na rua, com chales purpuras a rasto; o gato pingado só sahe á noitinha, á hora dos morcegos. Mais timido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e rôto.

Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes deem um pedaço de pão e só se deitam no sepulchro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome.

Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, tão lindo, que até as proprias macieiras de commovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que elles vivem aos gritos, offendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria?

O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pázada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sahe para os enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto e casaca, rigido clown da morte, que em logar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, jubilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato pingado! gato pingado! Vive de lagrimas, sustenta-se de dôres. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um carro funerario, na reles mascarada, em que irá elle a pensar, esbaforido e triste?....

Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem mãe atiraram-n'a um dia para um collegio d'orphãos, onde cresceu entre maus tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que crescia por caridade. Passava a vida na enfermaria e os medicos -- acho que de proposito -- livraram-n'a da morte, para que depois soffresse.

Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos rôtos, e magra e desleixada que faz piedade.

-- O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá uma Irmã que me beijava e fazia festas...

Mais felizes são os cães vadios, mais felizes, incomparavelmente, são as arvores.

O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ella chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella não dá palavra e só pensa: -- Antes eu fosse para creada de servir! -- elle quer que a Rata grite e chore.

Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...

Esta manhã appareceu com os olhos inchados e pisaduras na cara. O vestido já lhe não serve. E como está frio, reparei, traz os pés mettidos nos sapatões do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida, soffre! Nada te valerá. Até á morte, até que te acabe de matar com maus tratos. Ás vezes, se elle sahe, põe-se á janella, a scismar na Irmã, que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas -- e pergunta-se:

-- Porque não morri então?....

Calla-te e soffre. E até á morte, até o teu pobre corpo cahir exhausto, moido, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente, inexoravelmente.

Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e molle, de cabellos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar aguado e tonto.

-- Ó Gebo!

E elle, erguendo o carão afflicto:

-- Anh?...

E como este, outros assim. A toda a hora vae o enxurro humano polindo as pedras. A ventania açouta o casarão e passa, levando poeira de scisma, ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma multidão feita de terriço, de creaturas tendo arrancado a mascara: certos homens são sonhos, outros dil-os-hieis gritos. Põe-se o Gebo a contar a sua historia, surge o Corsario, uma velha tragica, com o caio dos palhaços, o Astronomo, um sabio hirsuto, o Gabirú, philosopho esguio e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de idéas e nunca olhou cara a cara a existencia. Anda attonito na rua, perdido n'um mundo que descobriu á prôa do seu barco como um navegador. No subterraneo do predio mora -- ha quantos annos? -- o homem do pacho, de quem ninguem sabe a historia. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os seres e as coisas, março, a arvore, a vida tumultuaria e larga como um rio, nunca mais a viu. Está vivo n'um tumulo: só as paredes esbrazeadas, á força d'elle sonhar, a rubro como as pedras d'uma forja, conhecem a sua historia. Pára no patamar o Gebo contando o que soffreu aos pobres que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e narra pedaços d'uma triste existencia de humilhação e de esmola, sempre esbaforido e escorraçado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do pão para os seus. E termina sempre:

-- Tenho pena de ter sido honrado...

A ventania présaga augmenta, abalando o Predio. De que é construida uma casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o homem. A arvore e a ossada da terra são arrancadas para o servirem. Juntem a isto gritos. De pedra, d'arvores e de gritos fôra construido o Predio. Juntem a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterraneos, outro de tanto sonhar empoeirára d'oiro o granito negro. De fórma que toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma feição d'aquellas existencias. É a habitação do Gebo, das prostitutas, do Gabiru, do Pitta. Escancara-se o portão, cahem-lhe os telhados, mas se, em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol, acredital-a-heis a scismar, a cantar. É effectivamente de pedra -- e de sonho.

Chove, mas em torno a terra arida, não tem agua nem plantas.

Só uma arvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se de dor. As suas raizes foram minando até ao Hospital, construido em frente da casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas nuvens, a toca -- eis um phantasma d'arvore todo de pó de luar.

Quédo-me sósinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas vezes são lagrimas que correm ou emoção que brota com o ruido d'um fio de bica cheio de scintillações e rumores. O cahir de lagrimas é sempre d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade: arvores, nóras humedecidas, donde sahe a frescura do chão, montes solitarios, parece que os prohibe aos desgraçados: como um velho sumidouro espera, guarda, construido de pedra e n'um brazido por dentro, todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heroes.

O Pitta, embrulhado no seu chale-manta, murmura ás vezes ao contemplal-o:

-- A misericordia humana constroe d'estes castellos, para que os ricos não assistam ao soffrimento dos pobres. E fal-os de pedra, de granito bem solido, para que se não ouçam os gritos cá fóra.

II

O GEBO

Heis de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados e um ar d'afflicção que faz riso e piedade. Tomba ás vezes na rua, levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo -- de cabellos brancos estacados. É o Gebo. É um gebo por ser picaro e rôto e por a desgraça o ter calcado aos pés até o tornar ridiculo.

Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida não n'a entendia e a cada empurrão tinha um ar espantado e afflicto de quem não comprehende. Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o soffrimento faz rir?

E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo, pedinchão e desgraçado.

As peores ruinas resumem-se n'esta secca phrase -- ser infeliz. Ha seres que nascem com uma sina -- amargar a vida. Tudo lhe corria tôrto, até as coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo existem, e elle punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estupido. Que mal fizera para soffrer?

Alem de desgraçado, este homem fôra sempre picaro: assim no globo passam existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que não deixam o mais simples vestigio, como os veios d'agua escondidos e que no emtanto são a vida da terra.

Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados, fazia rir.

Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha um coração igneo. Era d'estas creaturas a quem um montão de desgraças torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome. Enlameado pela vida fóra, resignado e chorão, elle ahi vae...

-- Ó Gebo!

E todos se riam ao vel-o chorar d'afflicção. Diziam uns: -- Que não fosse tolo! -- E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vêr calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a razão porque a desgraça alheia consola a nossa propria desgraça, dizem-me?...

A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr molle e gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as creanças crêem.

Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Ha creaturas em quem a desgraça se escarrancha no cachaço, e é p'ra sempre! p'ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, afflicções sem conto, ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-n'o, com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão d'aqui, empurrão d'acolá, aos tombos por esse mundo.

Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!... Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem nas mãosinhas uma força!

Assim esse velho ridiculo e gordo tambem fôra feliz outr'ora. Era d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia d'uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas. Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso d'agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli era a felicidade. Dão-nos as arvores toda a sua sombra: nunca nos enganam.

Muito tempo mentira á mulher, que ia vivendo illudida. Ria o Gebo em casa, com o coração torcido, para que ellas fossem felizes mais algumas horas -- ultimas horas tiradas á desgraça. Até que um dia succumbiu:

-- Eu não te queria dizer... Mas ó mulher! ó mulher!...

-- Que é? que foi?

-- Estamos perdidos, estamos perdidos...

-- Perdidos?!

-- Sim, estamos... E agora? agora? Ninguem me vale, ninguem se importa. Tenho pedido, tenho andado... e já não posso! Estamos perdidos, mulher!...

-- Estamos perdidos?

-- Sim...

-- Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!... Tu que queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgraças?...

-- Não, mulher, não, bem sei...

-- Anda!

E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exhausto -- e de cabellos brancos estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepusculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:

-- Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha filha!

Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnecel-o: -- ó Gebo! ó Gebo! -- Nunca mais houve paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh essas horas ferreas em que olhára em torno perdido e só vira seccura e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor d'afflicção para o resto dos seus dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem forças para luctar, quebrado pelos desenganos e pela indifferença dos outros.

-- E agora? agora? perguntava-lhe ella.

E elle cahido:

-- Agora não sei... Agora morremos todos á fome.

Batera em vão a todas as portas, anniquilado, sem idéas e sem forças. Só sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a desgraça seccára, lhe atirava improperios, gritos:

-- Mas levanta-te! procura! salva-nos!

Anda Gebo! E elle lá sahia, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado, atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de subito a esbracejar com gritos e soluços.

Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados, aos empurrões na vida e com um ar d'afflicção que faz riso e piedade.

-- Ó Gebo!

-- Anh?

-- Conta!

E elle logo, em palavras rôtas, precipitadas, bebendo as lagrimas:

-- Ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais faço peor, inda é peor... E já não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as afflicções, para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a bocca... O peor é d'ellas. O meu coração estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite cá dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho pena de ter sido honrado...

E fica com a bocca aberta, chorão, de cabellos brancos estacados.

III

AS MULHERES

Ao vir a noite põem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras resequidas e o ruido humano põem-se as prostitutas a cantar. São pobres, tristes, sêres de descalabro e piedade, lama que o homem géra de proposito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos, flocos de tristeza, que são como a alma, a afflicção da noite, a soluçar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! De blócos negros se constroe uma cidade. Ha ainda claridades esparsas, neblinas, que a Sombra callada, a tactear, de subito affoga sem rumor. E d'entre as meias portas surgem physionomias como só o remorso as cria: dirieis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as das mortas.

É a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo contar sempre a mesma historia desconnexa, dos pobres sahirem á procura de pão.

No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Ás vezes somem-se as boccas e da treva rompe aquella voz de tragedia, como se a treva falasse, ao que d'um canto a escuridão responde:

-- Ó tu!...

-- Que é?

-- Lembrou-me agora uma coisa.

-- O quê?

-- N'esta vida sabeis o que ha de peor? É nem a gente poder estar triste.

-- Ahi começas tu...

Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escuridão sente-se pairar a Desgraça... Callam-se e depois a mesma voz começa:

-- Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra que se lhe importa?

-- E então?

-- Nada. Mas inda assim olhae que é triste a gente não poder ao menos lembrar-se...

-- De quê?

-- Do que lá vae...

-- Melhor é a gente não se lembrar do que passou.

-- Tomára eu ser como morta -- affirma outra voz.

-- E tu?

-- Eu? Tu falas p'ra mim? -- pergunta uma magra surgindo do escuro. -- Tomára eu não ter memoria, p'ra não tornar a vel-a, como quando a vi estirada no caixão, por vê de mim...

-- Quem?

-- Á minha mãe.

-- Ah!...

-- Pois é... -- diz a primeira voz -- N'esta vida a gente não se deve lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantae!

E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma tristeza immensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as mesmas palavras, mais para fazerem ruido do que para que as ouçam. Ha uma que ri de tudo. É magra, pallida e gasta. Traz um pacho negro n'um olho e ri sempre, com um ar de mascara, de si, das outras, de todas as suas desgraças.

-- Eu sou a Mouca -- começa ella ás risadas. -- A minha mãe deitou-me fóra era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a á roda p'ra ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na rua e a minha cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladrões. Vidas! vidas!...

-- Tu não te calarás!

-- Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta. Até foi bom, agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês não querem saber? Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos treze annos um ladrão desfructou-me. Era um velho careca que parecia um S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente só aprende á sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra que todo o mundo piza, mas tambem já tenho calcado. Elle ha desgraças peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não ter uma codea p'ra a bocca. Olhae que eu conheço a desgraça. Tenho-a encarado... Faz mal quem se abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar d'um homem e inda é peor. Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo, as ricas e as que não tem uma sêde d'agua. O peor é quando se começa a gostar d'um homem...

Vocês sabem o que é o amor? O amor é cada qual ser como um cão. É a gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi têm o que é o amor. Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo: -- Tu que me bates é porque gostas de mim... -- Ahi têm o que é o amor, é a gente ser menos que um cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de soffrer.

-- Todas. Não ha nada peor do que nascer mulher.

-- Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse? Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por dentro: -- Este é meu amigo. -- Um dia partiu-me um braço, mas a gente é como os cães, que só gostam d'um dono que lhes dê pontapés. O peor foi que elle botou-me ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas! vidas! Um dia disse-me: -- Estou farto de ti. -- E sabeis? nunca mais falou p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a querer! -- Mas deixa-me gostar de ti... -- Vae elle disse-me: -- Fóra! -- E eu fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para atormentar uma dor que se me pozera no coração. Mas elle vem! elle torna!... Qual!...

-- Como se chamava?

-- Que te importa? Não é bom allumiar os mortos. Deixae estar quem está quieto. Ah, se vós o visseis morto como eu vi!... Vêr morto um corpo que se teve nos braços é como vêr no caixão um filho. Por mais que a gente grite não lhe dá vida! Trazia sempre no coração a mesma dôr... Vae uma vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.

-- A que vens? disse elle. E eu disse-lhe: -- A servir-te. -- E ri-me. -- Já sei que me não podes vêr, acabou-se! não me importo. O que te peço é que me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada. -- Elle poz-se a rir. Depois veio ella e eu puz-me a rir tambem. -- Venho ser vossa moça, quanto me daes de soldada? -- Elles cochicharam. -- Onde vocês pozerem os pés ponho eu a bocca. Aqui estou, aqui me têm. -- Elles riram-se de mim. -- Anda escrava! -- Vae eu e ria-me. -- Que quereis de mim? -- Rua, escrava! -- e eu ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no. Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do coração. Levaram-me em braços. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu só me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu lado. -- Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a Mouca -- terminou ás risadas.

Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente do Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As paredes são negras e humidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes afflicção, gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da mesma pedra de que é feita a vida.

Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar d'afflicção, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas á porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida em magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É dura, espremida, de feições crueis e coleras subitas. Ás vezes prega-lhes horas e horas:

-- O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte... Não no queiram, ouviram?

-- A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sósinha no mundo, -- diz uma derreada e tisica.

-- E ter o quê? Escarneo, só se fõr... -- accrescenta outra.

-- Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me affogava.

-- Pois andae! andae! -- diz a patroa -- Fartae-vos de desgraça. É só fartar. Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de desgraças. Antes morrer no rio!

-- Eu cá -- diz outra -- tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me deixasse antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao rio.

-- Depois queixae-vos... -- ameaça a velha. -- Sereis peor do que arroladas.

-- Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer terra, -- affiança outra.

-- A gente não tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber d'uma desinfeliz?

-- A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.

-- Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?

-- E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...

-- Eu cá -- diz a Mouca -- eu cá estou tão habituada a que me dêm dinheiro, que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol... Quando acordo e as encontro, parece que me pagaram.

As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:

-- Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu á Maria? Affogou-se e o amante ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morta. E todas morrem se se deixam ter coração.

-- Ás vezes mais vale morrer.

-- Morrer!... -- exclama a tisica.

-- Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi sósinha no mundo. Elle tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de agua-ardente com lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se sente!... Quando me vieram dizer -- foi a Mouca -- que o meu amigo estava com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a mãe que eu matei á força de lagrimas, por me vêr na triste vida. Nem podia gritar. Tinham-me seccado os gritos aqui -- na bocca... Sahi, andei...

A porta d'ella estava fechada e alli fiquei até de manhã ao frio. Os homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o que cada um traz dentro do coração. Scismei, passei a noite ora a scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda tenho as marcas. Estas só na cova me passam. -- Farta-te, se queres, mas não me deixes... -- Vae elle e disse: -- Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso vêr. -- Vejam vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem p'ra isto, p'ra nos deitarem fóra, e não ha mais nada, era melhor morrer... E antes tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...

-- O Hospital está á espera, raparigas -- diz a patroa d'um canto.

-- Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...

-- E a mim que me importa?

-- Eu já ouvi a um... E o que elles se riem uns com os outros!...

-- Depois da morte a gente não sente.

-- Quem é pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a estudar.

-- Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser retalhadinho!

-- Lá está o Hospital á espera, raparigas!...

-- Tu não te calarás!

Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:

-- Filhas inda podeis enriquecer. O que é preciso é muita experiencia da vida. Olhae que na terra só ha dor e vaidade. Não ha nada peor do que envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis pão, dão-vos escarneo. E põem-se a rir até do nosso odio, ouviram?

-- Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.

-- E tu p'ra que vieste?

-- Foi o meu fado.

E a velha continua:

-- Haveis de querer comer e tereis...

-- O quê? diz uma anciosa.

-- Pedras.

-- Acabou-se! diz outra.

E fica scismatica.

-- Mais nos valia morrer.

-- Mais valia.

-- Andae, andae! Lá está o Hospital á espera. Lá tendes todas uma enxerga e o lençol. E o cemiterio póde sempre com gente. Aquelle nunca se farta.

-- Tem sempre fome, -- murmura do lado uma sorrindo.

-- Pois tem, -- affiança a companheira.

-- Deixal-o ter! -- exclama a Mouca.

-- Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!... -- ameaça a patroa pondo-se de pé.

-- O quê senhora?

-- Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder arrancar.

-- Então para que nasce a gente? Só para soffrer? -- pergunta Sofia.

-- Só. A este mundo vem-se para soffrer.

-- Ah!...

-- Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O resto tudo é fingido...

Mas uma, triste e magra, a tisica:

-- N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem, um pobre como a gente...

-- Inda que seja um ladrão... -- interrompe Luiza.

-- Ao pé de quem se não sinta desprezada.

-- Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir -- affiança outra. -- Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a terra...

Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada vê-se o banco do hospital. Nada mais poído do que essas miseras taboas de pinho seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem, estremecem. Ha coisas que á força de serem tocadas por mãos humanas, ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de naufragos (todos os que entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia de gritos) começaram uma outra existencia.

Foi a arvore arrancada á terra para amparar os pobres. É ainda mais bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevão, ao sol, á tempestade, ás estrellas. Eil-a emfim sómente erguida para a dôr. Taboas que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'afflicção e suor de desgraçados que se entranhou na madeira.

IV

O GABIRU

No ultimo andar do predio móra o Gabiru, um solitario philosopho, esguio e triste como um enterro, armado da mais formidavel penca e da mais estranha sabedoria que Deus tem creado. Nunca viveu. Tudo que existe para lá do Hospital é para elle um grande mar ignorado e verde.

A realidade tambem não na entende: solitario e pencudo, da vida só se fartou com soffreguidão d'esta fonte que trasborda -- o sonho. Tem o olhar extactico e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaços, deixa correr as suas idéas á solta como os rios. Assim, metaphisico e pobre, de raras palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarneo de soldados.

Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na mansarda e exclama: -- Vou idear!... -- Sabe palavras, theorias, cartapacios, e nunca viu ao pé os rios, os montes, nem as arvores. Remexe em idéas profundas e nunca encontrou a realidade.

É assim feliz e triste. Posto á janella do cubiculo sente correr o doirado jorro dos dias, scisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as idéas que vae tecendo surge aquella figura tragica, que todo o dia ri com os ladrões e os soldados.

Mas elle ignora a vida. Alguma coisa porém existe de immaterial -- emoção violeta e oiro -- que o rodeia, quasi o toca e subito foge magoada e aos soluços. E fio a fio vae tecendo e constroe a sua theoria:

«Oh como eu tremo deante das arvores, do luar que corre branco e sem murmurio, da natureza esplendida!... Passo por doido e na verdade eu quasi grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a escutar, o mysterio, a agua que brota sem ruido, a arvore de braços erguidos, o caliginoso mar...

O homem passa indifferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudario a rasto, d'um raio de luz em pó, todo d'oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significação tem isto? É um sonho, um grito de belleza, uma alma? Montes verdes e ethereos, constellações infinitas, nevoa que do mar nasce e sobre o mar vae, como um portentoso rolo, como um giganteo phantasma...

E não adquiro o habito. Todas as manhãs é como se pela vez primeira me achasse deante da monstruosa natura -- verde, oiro, azul, como os seus rios, florestas, o mar a bramir e arvores que são sêres!... Por isso, sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz d'Adamastor a prégar á terra e ás coisas dilaceradas, eu me ponho, escondido e só, a discutir o enigma...

Devo, porém, notal-o: eu sou uma creatura singular. Ha até quem me supponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos vivos e despedaçados como eu, têm este feitio encolhido e transido. A esta hora da noite em que o universo parece deshabitado e em que até o rumor da penna no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me: alguma coisa, que não sou eu proprio, se põe então a murmurar baixinho. E eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a sonhar em quê? N'esta belleza infinita, o universo igneo...

Deshabituei-me de falar, mas sonho. Ha vozes esplendidas dentro em mim; de mim brotam arvores, estatuas mutiladas, pedaços vivos de sonho. Oh eu creio que cada creatura é um composto d'almas de montes, de pedras, d'aguas, e creio tambem que existe uma mysteriosa ligação entre o homem e os mundos. Estou preso ás estrellas e aos cardos humildes.

Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:

-- Lá vae o Gabiru!

Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes quero conviver com os desgraçados do que com os outros. D'elles tiro emoção para o meu sonho. Depois fecho-me n'esta trapeira alta, construida nos telhados e donde se vêem sêres admiraveis: labaredas verdes que se agitam -- e são arvores; nuvens pousadas sobre a terra com oiro a flux ou então d'um violeta desfallecido -- e são montes; e rôlos que correm vivos e fluidos -- e são rios. Muito tempo levei a decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraçados o sabia, porque o Hospital enorme entaipa a cidade, e essa vida humida, nóras, torrentes de detrictos, arvores, primaveras, gritos de sol, é desconhecida a todos os que soffrem lá em baixo, entre o granito resequido. Só outro pobre, o Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura -- a Mãe.

Oh! e ha horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas estarrecidas, todas verdes, em que eu quasi toco o mysterio. Ouço as palavras da natura, n'uma linguagem gigantea, de que não comprehendo o sentido. Os sons são syllabas perdidas, umas d'oiro, outras verdes. O ar é fino, alma empoada de luar, as arvores desmaiam e os grandes montes pallidos, onde o sol deixou fuligem, que vae esmorecendo até ao vir da noite, falam baixinho, entontecidos. Mais timido é o murmurio dos fontes, como se não quizessem perturbar o espantoso dialogo.

É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quasi entendo as palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vão tombar cheias de emoção e de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me envolve e toca, e que fala! que vae falar!...

Donde nasce esta belleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe prostrado e grita as suas palavras igneas são apenas sons, que misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monologo giganteo. E credes que existam montanhas, aguias, o mar, credel-o por ventura?.... São syllabas, são vozes da Terra que entra no dialogo. E mundos, estrellas, são palavras d'Aquelle que no infinito préga. É sempre a mesma força, a unica força que cria a belleza e o sonho, a força donde brota a Vida.

Eu tinha visto que a dor era sempre necessaria para se produzir alguma coisa de bello e de giganteo: para se agarrar um pedaço de sonho, que, apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esqualidas fique um farrapo d'essa figura de prodigio: para que a vida tenha um fim: para amar: para crear: para que alguma coisa de duradouro reste. N'um grito existe sempre viva uma porção de belleza. Da cova nascem coisas materiaes, fórmas, arvores, nuvens -- da dor jorra a belleza absoluta.

E com que fim? dir-me-hão.

Imaginem um estatuario: para compor uma marmorea figura, para realizar um phantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro, petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro soffre? Assim Deus esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de extraordinario: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo atravessa.

De que precisam os poetas para fazer uma obra de genio? De dor. O soffrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre debruçadas sobre os tumulos antigos? O luar que vem pela rosacea gothica ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de poalha: estremecem, levantam vôo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio, como o luar, dá vida ao sonho.

Para se crear é preciso soffrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu vida ás coisas inanimadas. Com um scopro e um tronco inerte faz-se uma obra admiravel, se o esculptor soffreu. Mais: com palavras, com sons perdidos, com immaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir, fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras creaturas. Com as simples e seccas lettras do abecedario, um desgraçado com genio, mettido n'uma agua furtada, edifica uma coisa eterna, uma construcção mais solida e mais bella, do que se fosse arrancar os materiaes ao coração das montanhas.

O que é então a dor, milagre extraordinario, que consegue dar vida ás fragas? o que é esse assombroso fluido, que se communica, alma arrancada da propria alma e que se póde repartir como o pão? Nunca houve sob o sol creatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento não consolasse ou salvasse. Até as mais humildes, tal como arvores que ainda depois de mirradas, vão aquecer e allumiar os pobres.

A dôr dá a vida e não é a propria vida: cria, redime, obra prodigios e nada ha que se communique, que convença, que torne os homens irmãos, como ella... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos n'um só grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com essa enxurrada de lagrimas? Deus?

Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de creaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miseria humana.

E d'esse mar espesinhado nasciam clarões, as nebulosas d'onde surgem mundos. Esse eterno rio de gritos, a correr desde que o homem existe, vae desaguar no infinito.

É que a dôr é a unica força que verdadeiramente cria e destroe: é a Força. Alimenta Deus e o limo. É um atlantico de fogo, é o espirito do universo. Cria claridades na alma dos desgraçados e faz nascer montanhas.

As arvores são emoções da terra.

Sonhae! soffrei!

Este mundo é talvez, como disse um philosopho desconhecido, uma gotta cahida d'um oceano infinito de belleza.

O universo é o sonho dolorido de Deus.

Nada se perde. A alma, as idéas e as emoções, fazem parte da força que faz florir o céo e os humildes pomares ignorados.

Eu colleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em fogo.

O mundo é mysterioso, cheio de gritos. A cada passo um tumulo d'onde renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cóva onde o Desconhecido remexe fórmas: o mar, as creaturas, as pedras, as tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu tremo de pavor.

Estas pobres creaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito, ladrões, philosophos, coveiros, mulheres perdidas, são esmagadas para que alguma coisa se crie. Geram o mysterio, o mar bravo da dor, e as macieiras anãs. Sob a nossa vista indifferente a cada passo se cumpre um milagre: sol, agua a nascer, pinheiros bravios e vivos!...

Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno -- ventania -- o que as coisas dirão!... Estão transidas -- ha que dias chove!... -- o vento despedaça-as e é sempre triste ouvir cahir tantas lagrimas. Por momentos quedam-se n'uma quietação, como se ficassem a escutar ou se pozessem a falar baixinho entre si...

Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro A Arvore. É do lodo d'estas coisas humildes, que eu construo a minha estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus pensamentos como n'um largo horisonte, não reparei que pela porta aberta alguem entrára. De fórma que tive um sobresalto, ao ouvir a meu lado n'uma voz pausada:

-- Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...

-- Hein?

Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a menos e não sei que doloroso sorriso; o Pitta mais velho e mais sordido.

-- Maquinações philosophicas meu preclaro amigo. A realidade é triste e amarga. Isto que d'aqui vê e não comprehende, arvores, montes e aguas, é no fundo tão revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e despedaça outra raiz, um braço que se crie empurra logo outro braço. Cada monte gera tanto odio como o coração do homem.

-- Por ventura o amigo já viu arvores ao pé? Eu só vi a do saguão.

-- Sim, conheço-as não só dos bons auctores, como de ter dormido á sua sombra movediça e fresca... São differentes: são vivas e enormes...

-- E o mar?

-- O mar, que d'aqui vê longinquo, todo do poeira verde, é tragico e feroz. Brame de furia, despedaça. É esverdeado e cheio de coleras... Só eu n'este momento lhe posso dar informações cathegoricas, reaes, absolutas, só eu, Pitta da Conceição, é que possuo no universo esse segredo temeroso.

-- E a Mãe, a natureza?

-- Uma amalgama, um cadinho cheio de gritos; fórmas revolvidas e trituradas, boccas que não pódem gritar. Veja...

Para lá do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios esquecidos de sol emaranhados nas arvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no emtanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros, gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a agua tinha um ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimára, bebia-a toda d'um trago. As nóras cansadas pingavam ainda o seu ultimo suor, e da noite que descera irrompia um murmurio, vozes de arvores e rios e montanhas.

-- Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...»

V

HISTORIA DO GEBO

Por fim, na entrada d'esse frio e rigoroso inverno, já tinha vendido tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro e gordo, dil-o-heis um trapo que se deita fóra ou um doido de cabellos brancos estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhecia.

-- Ó Gebo!

-- Anh?

A mulher, que fôra sempre bôa, azedára com a pobreza. Nervosa e secca passava horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou prégava dias inteiros: monologos cheios de gritos, de sonho espesinhado, todos lavados em lagrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os desgraçados, nem o tempo se apréssa; vae moendo na sua mó, consumindo-as, as tristezas, as afflicções e o pão negro. O desespero d'aquella creatura cahia em improperios sobre a cabeça do Gebo espantado, a suar, e a quem nem a propria desgraça conseguia impedernir o coração.

Todos os dias eram da mesma fórma eguaes, sombrios e tristes. Isto de chorar um dia e outro dia, dá a impressão de que chove e se não sahe do inverno.

-- Déste, emprestáste a toda a gente. E agora? agora? -- dizia-lhe a mulher -- Riem-se de ti inda por cima, e ninguem te ajuda. Morremos á fome.

-- É o mesmo, mulher, é o mesmo. Paciencia...

-- O peor é de nós, de mim e da pequena.

-- Pois é o que me afflige, que por mim quem me déra morrer!

-- Não fosses tolo! olha os teus amigos como trepam.

-- Ó mulher, mas que hei-de eu fazer? Tu não me dirás o que hei-de fazer?

-- Roubal-o! roubal-o!...

E eram palavras negras, afflicções sem conto. Ás vezes esqueciam-se e ainda palravam em torno d'uma esperança, a qual, agora nascida, logo a desgraça calcava. A mais humilde poeira d'illusão bastava, para que todos tres, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, promptos a edificar os mais altos castellos e esquecidos de tudo. Só a filha, Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso tão triste que lembrava certas horas em que ha sol e chuva misturados. E como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver rapar miserias, e por ser o unico sêr no globo, que lhe não dizia más palavras.

Lá ia indo pela vida fóra, cossado e com um ar de afflicção que fazia rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontrões nunca mais lhe sahiam.

A mulher passava os seus dias n'uma lucta desesperada com a desgraça, arrancando-lhe os ultimos trapos, disputando-os um a um até vel-os desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas escadas e a sua respiração -- anh! anh! -- suffocada.

-- Ahi vem elle... -- murmurava a mulher.

O Gebo entrava e ella logo, soffrega, morta por desabafar o que todo o dia ruminára:

-- Até que vieste, homem! E então? Conta. Então ha alguma esperança?

-- Não ha nada, mulher.

E sentava-se arrazado.

-- Tambem ninguem faz caso de ti. Que és tu? Sabes o que tu és?

-- Eu não, o quê?

-- Um ente inutil. Não ha ninguem que se não ria de ti, das tuas desgraças, das tolices que tens feito... Que é do dinheiro que tanto nos custou a poupar?

-- Eu sei lá agora do dinheiro. Não falemos mais n'isso... O que lá vae, lá vae.

-- Pois é o que tu queres... Mas hei de falar, has-de-me ouvir. Déste cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas a pequena. Reparasses, era a tua obrigação.

-- Ó mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma sécca. Não me basta a minha afflicção!... De que serve isso agora?

-- De que serve? Serve de muito!

Á noite, á luz do petroleo, o Gebo fazia escriptas com um cobertor pelos hombros e as mãos geladas de frio. A filha, sumida na sombra, compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passeando na sala. Batia a luz do candieiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos tristes, e, do outro lado da meza, só se viam illuminadas as mãos de Sofia, toda a noite trabalhando sem ruido e sem descanço.

-- Já tive uma lettra tão linda e agora... Os desgostos cansam a gente.

-- É de ti! é de ti! Outros têem penas, desgostos, cahem e tornam a levantar-se... -- dizia-lhe a mulher.

-- Têem sorte, é o que é. Para tudo é preciso sorte. -- E curvado sobre os livros contando, murmurava mais baixo: -- E vão sete -- ...

-- Sorte! sorte! A culpa é tua que não tens energia nenhuma. Procura! Deixas-te ficar espapaçado p'ra ahi... Tu o que queres é comer e dormir.

-- Ó mulher!... -- E erguia o carão afflicto, onde batia a claridade de chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados. -- Ó mulher, a gente tambem perde as forças... Sempre a desgraça! sempre a desgraça!...

-- Tudo nos corre torto!

-- Mas...

-- Tudo! Deixa-me!...

E desatava a chorar. Então o Gebo, afflicto, a mão curta e gorda ronronando no papel, mentia para lhe dar animo.

-- Qualquer dia entro ahi n'um negocio, tu verás... Não te afflijas. -- E vão cinco... -- Tambem ha-de chegar o nosso S. Miguel. A desgraça ha-de-se cansar de nos perseguir.

E o pão que trazia para casa era quasi uma esmola. Mas tanto mentia, que chegava elle proprio a illudir-se.

A velha reanimava-se. E outra vez passeava na sala, embrulhada no chale rapado.

-- Não, que é preciso sahirmos d'este atoleiro.

-- Agora vae, agora vae, tu verás. Ando ahi com um negocio... Sabes tu que mais?... Deixa-me trabalhar.

Ia a mãe deitar-se e Sofia, até ahi silenciosa, dizia erguendo-se:

-- Pae não se afflija.

-- Eu não, filha, eu não. Aquillo é genio, coitada. Ella tem razão, tem soffrido muito. Vae tu tambem p'ra cama. Dá cá um beijo... Assim. Eu cá fico com a escripta.

-- Muito boa noite.

Sósinho o Gebo scismava muito tempo, olhando a luz. Depois, horas e horas, ouvia-se a penna correr do papel, parar, tornar... -- E vão cinco, e vão sete... noves fóra nada... -- até que a vista se lhe toldava, e a deshoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a meza, soluçando:

-- Não posso! não posso mais! E tinha uma lettra tão linda!...

Na propria desgraça cahem por vezes resquicios de sol. Assim houve tempo em que respiraram. Tinham-lhe dado escriptas, mas ia-lhe faltando a luz dos olhos, e a vida d'expedientes tornára-se mais aziaga. Achavam-no ridiculo, ninguem o tomava a serio, a esse homem gordo e chorão, que vivia com esta pedra a gastal-o -- a sorte da filha. Escondido da mulher empenhára a casinha onde moravam, e passava as noites trabalhando nos livros.

Quasi sempre ao deitar falavam da filha.

-- É o que nos vale a nossa filhinha.

-- Sempre nos dá mais animo.

-- É tão boa, tão nossa amiga!...

A velha trabalhava, ruminava projectos desconnexos para enriquecerem; a roupa andava defendida e cuidada até ás ultimas. Luziam as coisas e quasi não comiam para poupar, sobretudo ella que tudo guardava para o Gebo e para a filha.

-- Ó homem, mas então? Toda a gente, se arranja e tu estás sempre na cepa torta!

-- Deixa estar, mulher! As coisas não vão como tu pensas.

-- Ora não vão! não vão!...

Era ella afinal que o empurrava, áquelle ser gordo e inutil. Fortalecia-o.

-- Por vossa causa é que eu lucto, -- dizia elle sempre.

Ás vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Anninhas e as duas mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Ha creaturas que só apparecem quando a desgraça entra n'uma casa. Era uma velha, de chale preto sem pello, e que vivia de aproveitar os restos da miseria. Trazia novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que pessoas suas conhecidas tambem eram infelizes, tinha pena dos que soffriam como ella!

-- Ó Anninhas ouvi dizer que a Desideria está por baixo, coitada!...

-- Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.

E ella n'uma ancia:

-- Fome? passa fome? Coitada!

-- Mesmo fome, filha.

-- Que me dizes?

-- É isto que te digo. E tu como vaes com a tua vida?

-- Agora, graças a Deus, vamos indo. As coisas vão-se remediando.

Entretanto o Gebo ia para uma loja conhecida onde se juntavam os negociantes fallidos, os professores sem discipulos, os burguezes desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam illudir-se. Enganavam-se uns aos outros, não por mentirem, mas para tornarem mais visivel a sua aspiração, o sonho que traziam escondido. Discutiam imaginarias emprezas, negocios impossiveis.

-- Oh como eu sou feliz!... -- dizia o Gebo -- Agora tenho ahi um logar...

Nem sequer o escutavam e, se um sahia, diziam os outros:

-- Cuido que está cada vez peor.

-- Um homem que teve um credito na praça!

-- Tem a fome á porta.

-- Coitado! Eu agora é que trago entre mãos um negocio...

Porque é que elles não trabalham? Porque a quebra, as afflicções, a ruina, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e só sonham em se tornar ricos. Vivem illudidos e tombam no sepulchro gastos e com a scisma em maravilhosos lucros. E não têm porventura razão? Não vão amanhã quinhoar d'essa larga e mysteriosa empreza -- a Morte?

VI

PHILOSOPHIA DO GABIRU

E que tu acreditas na immortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?

Tenho horas em que creio: é uma esperança, um raio de luz entrando n'um tumulo vasio pela juncta abalada d'uma pedra. Porque crêr? porque não crêr? Theorias, palavras... No intimo, porém, sou materialista como toda a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom -- dormir para sempre. Ir ser arvore, luz, detricto, correr nas veias da terra, é quasi consolador -- excellente somno sem sonhos, depois da lide canceirosa d'um dia.

Na primavera quasi sempre sou materialista, no inverno idealista e com a mesma sinceridade, quasi com ferocidade.

Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!...

Ser só por cobardia, para não ter este aguilhão da vaidade a espicaçar-me: -- Então tu não fazes, e este, aquelle, o diabo, fizeram! -- Ser só para sonhar e para vêr este espectaculo unico -- -a natureza; para passar os meus dias vendo as transformações d'uma d'aquellas arvores que d'aqui contemplo!...

Quando me fecho e estou só, sou tão differente!... Como o homem é desconhecido até de si proprio, porque o tempo passa, vem a morte e elle não esteve sósinho! Se estou só vêm falar-me vozes -- eu mesmo -- mas com que palavras unicas! Os sêres de que sou composto, se me habituo á solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...

Tenho a certeza de que fui arvore e é por isso que tanto as amo.

Ha livros que falam baixinho, ha livros que falam alto. Uns têem por si o encanto, outras a força. Ás vezes as palavras murmuradas impressionam mais: passado tempo ainda ellas acordam em nós fibras adormecidas.

Porque é que a agua, até o mais humilde charco, attrahe e faz sonhar os homens de imaginação?

Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ella é inalteravel.

O homem prende-se com muitas coisas inuteis: a riqueza, a ambição, interesses mesquinhos: vive emaranhado n'uma teia. De forma que não tem tempo de vêr, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas creaturas, existem que nunca olharam para o céo? A natureza, arvores, montes, rios, esse pelago que vejo do meu quarto deixa-os indifferentes; as horas de preguiça e sonho deixam-os indifferentes. Nunca tiveram tempo para amar as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não no viveram. Por mim antes quero comer pão e scismar, deixar correr as minhas idéas como um regato corre -- até onde tem agua. Alguns morrem sem terem reparado que existiram.

É por isso que eu corto sempre com tudo que me não deixa sonhar -- e que quando encontro razões para acabar com um amigo tenho um suspiro d'allivio. É uma amarra de menos.

Habituar-se a gente a viver com idéas simples é como habituar-se a andar com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se viver arredado.

A morte aterra-me pouco. Porquê? Porque só penso na morte como n'uma divida distante. Fica para muito longe ainda.

Ha horas, porem, á noite, de subito, em que, sem ligação, essa idéa rapidamente me toma e abala até ás mais reconditas fibras. Suffoco então aterrado.

Com que facilidade se matam até os entes mais queridos!... Quantas vezes me surprehendo a assassinar eu a desejar a morte -- é a mesma coisa, com este acrescimo, a cobardia -- de pessoas que soffreram por mim! Por a menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento é este:

-- Se elle morresse...

É claro que protestas logo. Protesta o teu coração, a tua educação, os teus habitos e até a tua hypocrisia. Mas se deixares trabalhar a imaginação á vontade, sem peias, é uma hecatombe -- por futilidades.

VII

PRIMAVERA

O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a primavera. Ia crear! ia crear!... Aquelle chão que só o arado do sonho lavrára, eil-o atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma -- a Vida. Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e d'olhos perdidos de scisma...

Acordára emfim para a realidade e elle, que tinha passado a vida a revolver um brazido d'idéas, longe da terra e do seu lodo, amou a Mouca, raza como o chão. Todos se riam d'ella, magra e pallida, de pacho n'um olho, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção.

O seu ideal prendera-lhe os olhos tal'qual nol-os prende o lume, de fórma que ao erguel-os, déra de cara com a vida e perguntára: Que é isto? o mundo, a tempestade, tudo o que do cubiculo vejo, arfando ao sol, penetrado de ruidos e de sombras? Arvores acenando-me com os braços, vozes d'aguas fartando as terras imbebidas? Isto?... Tudo é luz, é uma chamma? E como tudo é bello!

Vêr ao pé arvores e montes, a esse esguio philosopho habituado a conviver com velhos cartapacios, parecia-lhe tão irrealisavel como subir ás estrellas. Nos alfarrabios fala-se de tudo menos da vida. Por isso acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo, o extraordinario mar: «Vós que me quereis?» E no alto da mansarda sorria para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.

-- Porque a amas tu, philosopho?

-- Sei lá! Amo-a. Dá-me vontade de chorar ao vel a. Amo os seus olhos tristes, o seu feitio do cão espancado. Amo-a, porque qualquer outra me desprezaria, envelhecido a sonhar. Ella é parecida commigo, talvez tenha pena de mim.

Todos somos constructores. De terra e de emoção andamos pelo mundo a amassar estatuas; de realidade e de sonho architectamos as figuras que se misturam na nossa vida. Ellas existem mais pelo que lhes damos de nós mesmos, do que pelo que na realidade são. De saudade, de sonho, de lodo e piedade, construira uma figurinha offendida e triste, andando no mundo aos tombos, sem pão e sem abrigo. A elle que passára a vida inteira a atear um brazido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escarneo de ladrões e de soldados.

A casa das mulheres de dia é funebre, mas de noite, á luz do petroleo que esvoaça e deixa tudo n'uma meia tinta d'afflicção -- candieiros partidos, luzes fumarentas -- lembra um circo de desgraça, onde palhaçadas tragicas façam gargalhar e onde os ladrões e as mulheres enfarinhadas representem a serio vicios e crimes, com risos e choros á mistura, para que o publico que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar gargalha toda a noite ao vel-as maltratadas, e o Morto, palido e soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos osseas e enormes sempre frias e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso tragico. Despreza a dor e os gritos. Sente-se que d'elle não ha a esperar piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Apparecem outros e toda a noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.

Cada um alli arranca a mascara, transforma-se, fica um ser nu: as feições endurecem, o riso é atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos. Paga, maltrata. É lodo, não ha que ter piedade. E as mulheres cantam sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do passado, com medo ao escarneo, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A historia é identica, o eterno humus amassado em lagrimas. Ellas sabem que nasceram para soffrer e resignam-se: o esgoto é necessario. Tudo na vida se alimenta de gritos, como as raizes na terra se sustentam d'agua. Enganam nas e não se queixam. É o Fado. Não têem odio a quem as illudiu; ao contrario não esquecem esse fio de sonho espesinhado, que ainda sentem correr na vida, longiquo e triste, quasi a sumir-se de todo. O Fado as faz nascer e as traga. Triste é sempre a vida -- lagrimas, pancadas, pão e assim as leva a sorte até á cova. Ouvi: esta seiva dolorida fará nascer um dia alguma mysteriosa Arvore.

São irmãs e unidas, sustentam-se na desgraça. Os amantes moem-nas e ellas humildam-se, tão triste é não ter ninguem a quem amar. E as desgraçadas, aquellas que, de confundidas com a lama, se não enxergam, são as que de todo se sacrificam por elles. Miseras creaturas, a quem se paga com injurias, quanto mais afundadas na desgraça e mais pobres, quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas para que as amem. Ficam dias sem pão para que os amantes o tenham. Tiram a ultima camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se se as desilludirem. Sêres de ignominia só amam idealmente. Assim será o amor das hervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza é pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto é a unica realidade.

A casa é tragica, de tectos negros, sumidouros, corredores onde toda a noite agonisa uma luz de petroleo.

Ha mulheres tisicas, com tosse e a taboa do peito raza; ha-as que insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia, é alta, curva, cansada, e tão cheia de resignação que parece morta; outra, Luiza, a quem chamam a Asylada, quasi não fala. Olha soturna, com os negros cabellos violentos todos soltos e a physionomia empedrada de magoa.

Ao fundo divide a casa um corredor com cubiculos. Ás vezes, altas horas, tudo sereno, ouve-se na escuridão um ruido de choro suffocado.

Fóra vê se o Hospital e a rua negra, onde o enxurro humano sem cessar carreia detrictos, lagrimas, sonho. Especadas ás esquinas creaturas esperam... Parecem pedaços de noite destacados da propria noite. Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram á treva para se embrulharem um farrapo do seu manto. Ás vezes da escuridão sae um perfil, mãos que querem arrepellar, mas logo tudo se some entre roupagens, que têm a rigidez tragica das estatuas. Só a mão, que o lampião illumina, fica decepada. Por vezes toda a figura baça e amolgada surge, para logo se anniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e ellas nem se mexem, petreas: se choram são a Dor. Algumas, de viverem d'um passado de fogo, parecem mirradas, outras procuram mingoar, extinguir-se, não occupar logar na terra. E entretanto as mulheres vão cantando na mesma toada de catastrophe, que a noite traga, como farrapos de sonho espesinhado...

Todas as noites o Gabiru lá vae sentar-se a um canto a scismar. Olha a Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladrões e os soldados e ellas vendo-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:

-- Lá vem o enguiço!

A Mouca ás risadas diz:

-- Cá temos o enguiço!...

Mas em vão! Elle, com as enormes pernas dobradas, alheado, a penca cahida, sem vêr nem ouvir, pensa n'um amor ideal e monologa baixinho, entre as mulheres, os ladrões e os soldados:

«O que eu sonho! Eu que sou tão timido, ponho-me a falar e a scismar... E tanto scismo!... Troco tudo. Como é que tu gostas de mim, que nem te sei sorrir?

Ando a inventar uma lingua nova, que seja como a das fontes e a das arvores, quando desponta março, para te exprimir o que sinto. Todas as palavras me parecem mirradas e servidas.

Olha, dize-me: chamas-te Maria, não é?»

E entretanto os ladrões e as mulheres conversam:

-- «Tu não te callarás, estupor!»

E uma tisica, magra, só com a pelle e o osso, explica:

-- Uma mulher da vida... Que estão vocês a dizer das mulheres da vida? Eu inda queria vêr... Quando tu não tens pão quem t'o dá?

E o ladrão responde:

-- És tu.

-- O pão que eu ganho com o meu corpo com quem o parto?

-- Commigo.

Mas outra do outro lado berra:

-- A gente aqui é como os cães. Toca a rir, raparigas! Se uma mãe adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!... -- E virada para um que entra: -- Olha lá, ó coisa, pozeste-me o corpo negro n'outro dia... Tu imaginas que uma pessoa é de ferro?

-- Abaixo as patas!

Uma mulher pergunta a um velho ladrão calvo, que a um canto só ri, com uma bocca disforme, escancarada na sombra:

-- Tu que eras, ó velho?

Mas elle ri-se com a bocca aberta sahindo do escuro -- só bocca -- como a fauce desdentada d'um lobo, e um outro é que responde:

-- O velho era lavrador. Olhae-lhe p'ras mãos. Cheira a terra e a pobre.

O philosopho a um canto scisma, olhando a Mouca entretida a falar com os soldados:

-- «Tenho muito que te dizer -- tanto!... -- e não sei o que te hei-de dizer!...

Se me perguntam: -- Tu que tens? -- parece-me que acordo e que me puxam para a terra.

As arvores levam todo o inverno a sonhar inchadas e um dia acordam desfeitas em sonho. É o que lhes acontece.

Ora vem ahi março, já rebentaram novas fontes... Maria é um nome tão lindo!»

Falam aos grupos, n'um borborinho. Andam todas mal vestidas e com frio. Uma traz meias amarellas e outra, a quem a tosse desconjuncta, anda com um chale de seda que a não aquece.

-- E tu que eras?

-- Eu nada. Basta de conversas. Dás-me um beijo?

-- Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta eras capaz de me dar um beijo. Com essa cara! Olhae p'ra elle, raparigas... Já viram alguem rir-se assim?

-- Ó minha arrolada!

E deu-lhe um pontapé.

Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:

-- N'esse dia tomo uma bebedeira, que ha-de dar que falar.

-- Tu?

-- Sim.

-- A mim minha mãe é que era a capa. Encobria-me.

E ninguem se importa com o Gabiru, que tece, vae tecendo a sua teia, toda de emoção e de nuvens, encolhido a um canto, absorto, sem vêr nem ouvir:

-- «Não sei bem o que sinto, que nunca me vi assim. Do meu coração sahe uma bica que rega as coisas mais seccas. E ouço! o que eu ouço!... Ao luar, lá em cima, ouço as montanhas em dialogo e falarem arvores e pedras!...»

E a tisica, voltada para o ladrão, diz-lhe:

-- Que queres mais que te eu dê?

E elle, rindo:

-- Ora! dinheiro...

-- Nem p'ra pão já o tenho, quanto mais!... Já o não ganho. Quem me quer, se todos dizem que estou tisica? Estarei...

-- Tu arranjas sempre.

-- Aonde? os meus trapos estão no prego, este chale é emprestado por misericordia. O lenço que hontem trazia, vendi-o p'ra pagar á patroa. E amanhã entro para o Hospital.

Elle lentamente ergue-se para sahir. Quasi á porta murmura:

-- Bem sei onde ir buscal-o.

Magra, desconjunctada, a tossir, a tisica exclama:

-- Pois vae! vae!... Se outras te dão mais, vae!... Deixa-me!...

-- Pois vou...

E logo ella, arrependida, torna:

-- Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como quê? como um filho meu... -- E para as outras com um amargo sorriso: -- Ó raparigas, quem ha ahi que me empreste algum dinheiro pelas almas?

Uma abaixa-se. D'entre a meia e o sapato tira uma moeda e a tisica, estendendo a mão:

-- Já a não ganho com o meu corpo.

E beija as cruzes ao dinheiro.

-- Toma.

Dá-lha e baixinho põe-se a pedir-lhe:

-- Antes de eu morrer, promettes que me vaes vêr ao Hospital? Todos dizem que estou tisica. Não é por nada, mas vae-me custar morrer, sem vêr ninguem ao pé de mim... Quem hei-de eu vêr? Agora olha como te portas sósinho, ouviste? Inda te levam para o chelindró. Vocês em se pilhando á solta, adeus meu amigo!... Entro amanhã de manhã para o Hospital e na quinta é dia de visita. Não te esqueças de mim, ouviste? A gente prende-se e depois custa-lhe. Ora! que é que eu faço n'este mundo?.... Tu ha boccado disséste que bem sabias onde ir buscar o dinheiro. Era á Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. 'Stou prompta! Sou um cangalho, só sirvo de tropeço... Mas olha que fui sempre tua amiga. Já agora deixa-me acabar, p'ra lhe não dares esse gosto... Só te peço uma coisa. É que me vás vêr antes de eu ir p'ra a cova. P'ra a terra! Isto de a gente morrer sem mais nem menos até me parece exquisito... Que haverá no outro mundo?... Estou prompta. O medico hontem disse: -- Estás prompta! -- E atiram assim com a gente p'ra o cemiterio!... Eu ainda queria que me dissessem o que é que a gente cá vem fazer...

-- Sei lá!

-- Chorar. Só se fôr... E levar má vida.

Apertando-lhe as mãos, envergonhada:

-- Então vê lá se te esqueces de mim.

-- Ágora!...

E ella sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe illumina a bocca descorada como um reflexo de sol:

-- Ágora! é o que vocês sabem dizer. Os homens são todos o mesmo, falam todos pela mesma bocca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e tudo leva comsigo.

O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:

«Que tempo este em que estamos. Parece feito de emoção... E tudo vae sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem n'o sinto nas arvores, nas pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer! tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»

VIII

MEMORIAS DE LUIZA

É assim a historia de uma das mulheres:

«Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos gelados vem de muito longe, de pequenina.

Nunca tive mãe, nem ninguem. Fecho os olhos e só vejo o Asylo, os corredores humidos, o dormitorio, o frio refeitorio abobadado de granito. Toda aquella pedra parecia sepultar-nos.

Tambem guardo de pequenina esta impressão: a vontade que tinha de beijar, sem ter ninguem a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram hirtos.

Vou vêr se me lembro bem... Primeiro é tudo confuso: depois vae-se espancando a nevoa e eu recordo a triste existencia do Asylo.

Noite ainda nos erguiamos para resar. Tocava um sino. Mal sabiamos andar, tropegas como velhinhas. A algumas era preciso vestil-as. A Irmã ralhava se nos demoravamos. Aquelle somno da manhã de que nos arrancavam era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para sempre. Para que vem a gente ao mundo?

De tantas que conheci quasi todas, mais felizes, morreram por não terem mãe.

Todas, tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas. E não sei quê de amargo, de reflectido, de soffrimento, de experiencia da vida. Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma disse alto:

-- Ó mamã!...

E foi um escandalo. Onde aprendera ella, que não tinha mãe a pronunciar aquella palavra?

Quereis crer? Só tenho esta imagem: pareciam velhinhas recolhidas, tristes por não terem filhos.

E no entanto eu curto saudades d'essa negra existencia do Asylo.

Na cerca havia um curral com vaccas, que nos davam um leite aguado. D'uma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade perguntei ao hortelão o que ella tinha.

-- Soidades por lhe levarem o filho.

E ha mães que os deitam fóra!

Muito deve custar a morrer a uma mãe, que deixa no mundo um filho para o Asylo!

Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram desageitadas, de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias. Faltava-lhes não sei que graça, que só existe nas que têem mãe, por mais feias que sejam: seres d'abandono, plantas que vivem estioladas...

Ás vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem secco, rispido, de cara rapada, que nos vinha lembrar que viviamos por esmola:

-- É preciso que se recordem d'isto: a sua vida devem-n'a aos bemfeitores.

Elle proprio era um bemfeitor. O seu retrato lá estava collocado ao pé dos outros, com o mesmo caixilho funebre. Era o ultimo da sala enorme, gelada, onde os passos echoavam, toda cheia de retratos em torno. Os bemfeitores!... -- Dir-se-hia uma galeria d'afogados, todos solemnes, seccos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.

Todas as noites as Irmãs nos faziam resar por elles, a quem deviamos o pão e a vida.

Era prohibido falar, a não ser ás horas de recreio, e isto explica talvez os vincos que todas tinhamos, ainda as mais pequeninas, aos cantos da bocca.

O melhor sitio do Asylo era a enfermaria por isto: era mais quentinho: dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as arvores da cerca: e por a Irmã enfermeira ser a unica que tinha coração e que gostava de nos beijar. Todas eramos amigas d'ella.

É curioso. Lembro-me das grandes arvores que de lá se avistavam, mas só as recordo descarnadas e despidas, n'um céu pallido. Sempre no inverno.

Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doridos. Nunca mais consegui aquecel os.

O pão do Asylo tinha um sabor que nunca encontrei em outro pão, por mais desgraçados que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em todo o refeitorio havia um cheiro identico. Tudo, até o Christo, até o caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam parecia dizer-nos: «Olhae que viveis por caridade! Habituae-vos á desgraça!»

Quereis crer? Muito mais caridoso seria affogar as creanças que não têem mãe. Livral-as-hieis do Asylo, da caridade, da vida.

No dormitorio tudo era regular, branco e monotono, e, apesar de branco, funebre. O sol, que entrava pelas janellinhas, abertas n'uma muralha de prisão, era pallido, e, mesmo de verão, parecia um sol d'inverno; as camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas ás paredes caiadas e nuas; só ao fundo, por cima da cama da Irmã, um Christo de louça azul manchava aquella brancura.

O recreio não era na cerca do convento. Brincavamos sem barulho no claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar arvores e sombras. O claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectangulo do céo, e a sombra geometrica estendia-se cá em baixo. De um lado era sempre frio e humido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um golphinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio d'agua frigida. De tudo aquillo sahia uma paz transida de sepulchro. Só andorinhas cortavam em cima o céo; mas d'uma vez que em março vieram, afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas deitaram-lhos abaixo. Destruil-os porque? Os restos, farrapos de pennugem quente, ternos dirieis, andaram por muito tempo no claustro. Passaram de mão em mão com alvoroço. Algumas das asyladas scismavam, olhando-os: as mais pequeninas brincavam com elles. Uma disse:

-- É um berço...

Destruil-os porquê? Para que não soubessemos que as aves têm mãe e cuidam dos filhos? Para que não tivessemos saudades das nossas, que não conheceramos? para que ignorassemos?... Mas que candura a das Irmãs se era por isto! Nós presentiamos, adivinhavamos tudo aquillo e quando uma das mais pequeninas explicou ás que faziam roda:

-- É o berço dos passarinhos...

-- quantas de nós já tinham scismado n'um berço assim agasalhado e fôfo!...

D'aquella vida identica, secca, dura, vinha um dia, quando eramos grandes, arrancar-nos o provedor.

Era um dia solemne. Iamos partir. Quem precisasse d'uma creada que comesse pouco procurava-a no Asylo. Uma caderneta, papeis, alguns trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:

-- Sustentou-as este Asylo por caridade. Se vivem devem-n'o aos bemfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas orações do bem que lhe fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-n'as por esmola...

E assim, com uma trouxa debaixo do braço, partiamos para a Vida.

Oh! minha mãesinha!»

IX

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Ter os mesmos direitos que as arvores e os bichos á immortalidade, humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmão do que é pequeno e desgraçado.

Só as creaturas que soffrem é que são dignas de viver, e na verdade são as unicas que vivem.

No tempo infinito e no espaço limitado as moleculas agregam-se, desagregam-se... Só chimica, só a chimica existe... As moleculas, que têem em si a força vital, são hoje arvore, amanhã animal, pedra, homem. Conforme o quê? o que é que as modela?...

Eis-me: eu fui e continuarei a ser n'este oceano tragico, o que o acaso determinar, conforme as minhas moleculas, amanhã desagregadas, se unirem a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui -- continuarei assim pela eternidade.

Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da minha propria vida: quero que fale dentro em mim o universo que eu já fui -- a pedra que eu já fui -- a arvore que eu já fui -- o bicho humilde que eu já fui...

A tua opinião?... De que me serve? E é ella tua, sentel-a bem tua, ou é aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...

Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compõe o meu sêr, deixal-o prégar com a sua voz rouca -- com a sua propria voz e não com a tua. Se eu trago odio, deixae-me ser o Odio; se eu trago riso, deixae-me ser o Riso.

O momento é unico, não vale perdel-o. Porque acaso, porque furia insana, depois de que rebeldias, de que horas ou seculos de aguilhão, de desespero e raiva, estas moleculas, perdidas n'um oceano maior que o atlantico, tornarão a ser, se chegarão a reunir para terem a consciencia do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas leis, as tuas theorias, os teus sonhos...

O momento é unico: vae perder-se ámanhã. Seculos de canseira para terem n'um minuto a consciencia do universo; seculos de sonho tremeluzindo no fundo da obscuridade, para não virem afinal á luz, seculos de amargura, de esforços, de tentativas abortadas -- para não chegares afinal a viver. É como ir a uma arvore e arrancar-lhe toda a flor...

Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino. Cumpre tu o teu. Tudo é harmonico, porque vive da verdadeira vida: as plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animaes, a natureza inteira, não têem remorsos nem duvidas. Nem tu as terás, se viveres da tua verdadeira vida e não de outra.

A tua educação deve consistir n'isto: em fazer falar o universo que trazes comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te contrariar n'isto. Sabes acaso d'aqui a quantos seculos, tornarás a ter consciencia? E que forças perdidas, que luctas não vão ser necessarias?... Quantos gritos!...

Gosa tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca voltarás a sentir senão n'uma infinidade de seculos. Impregna-te de vida, do teu largo quinhão de vida, para que ás portas do Nada possas dizer: -- Vivi!...

Estão em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os deveres para com os outros.

Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque andaste nas suas entranhas; a nuvem tua irmã; a arvore onde correste em seiva -- e o homem porque és o homem.

Se te não deixam ser o que deves ser -- resiste. Mais vale morrer do que não luctar. Morrendo, triumpharás porque cumpriste o teu destino. Tu és feito de humus, tu és feito de terra. Se ella te deu bocca para que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao fim de mil tentativas se digam as palavras necessarias... N'esse dia tudo terá voz. Na verdade não haverá fonte, arvore, bicho por mais esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e não faça a sua confissão.

A educação moderna, ao contrario, tende para isto: para que todos falem no universo da mesma fórma.

Nasce comnosco o destino. Não o cumprir, seja qual fôr, é ser desgraçado.

Cada creatura que nasceu hontem ha quantos seculos anda a ser gerada? Sabeil-o?...

Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente, que Deus creou para um fim... Assim nascerão creaturas que incarnarão o Mal, dirás... Pois que o mal tenha tambem a sua bocca e que fale sem gaguejar.

Se a natureza cria monstros, é que elles são necessarios, como certas pustulas que purificam.

Nunca os tigres afinal venceram.

E de que te serve andares mascarado?...

O homem tem em si particulas de tudo o que no universo existe: metaes, pedras, etc. É um universo reduzido. Conforme n'elle predominam determinadas moleculas, assim odeia ou ama.

Quando é que a chimica será tão grande, que possa fazer esta analyse?...

Ha pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem sabe?... Se ha um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e és eterno.

O que é a piedade sincera, abaladora, interior? Uma reminiscencia.

Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra subtilizada que tu és, a terra tua mãe. Essencia da terra, trabalho insano do seu ventre durante seculos e seculos, homem não a renegues! Ama-a, ama a vida. Tu és talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a sua emoção, toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de immaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ella t'o ordena, sê máu se ella o quer.

Ha dias em que a gente se sente responsavel por todo o mal que se faz na terra.

No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moleculas -- que são rios de odio, outros que são rios d'amor, outros que são a amargura, o riso, o sonho...

X

HISTORIA DO GEBO

Elle ahi vae, aos tropeções, amachucado e ridiculo.

Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu carão espantado só nos fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatéla-o no lagedo, afflicto, sem mão que o ampare -- e de cabellos brancos estacados. Gritam-lhe:

-- Ó Gebo! ó Gebo!...

Não ha que ter piedade dos fracos. A propria natureza os repelle do seu seio.

Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas no chão, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe custava era vêr a filha horas e horas a scismar. Em quê?... O Gebo ao pensar na sorte de Sofia cuidava que lhe torciam o coração. Por ella é que se batia ainda com o destino. E quasi não tinha pão para lhe dar!

A mulher clamava:

-- Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és és um mandrião. Olha os outros como furam, como sobem... Tu és um estupido! Na vida é preciso ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!

-- Ó mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.

E afinal cahira para sempre, sem energia e sem forças, prostrado. A sua vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrêra tudo, batêra a todas as portas e assim se affizera á humilhação e á esmola; a ser mal recebido, a ouvir respostadas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos, que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras na mão:

-- Volte depois! É demais! Isto sempre não pode ser, você abusa!

As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de pôço, em que ao deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados á desgraça, em que se não pensa, sem sonhos, d'um profundo anniquilamento, eram o unico goso do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto maiores eram os seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrario da mulher, que quasi não dormia e levava a noite inteira a scismar e a chorar, elle, logo cahido na cama, logo tombava como morto. Ás vezes a mulher nem descançar o deixava; queria falar, discutir, ouvil-o...

-- Dormes como um porco! Fala, escuta-me!

E o Gebo, a pingar de somno, lá se punha a dizer palavras, coisas desnorteadas, até que ella enfurecida exclamava:

-- Dorme! Fica-te para ahi!...

Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco tostões, que todos os dias precisava de juntar, começára a ser desorientada e feroz. Viam-n'o correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua afflicção em palavras rôtas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas á porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio remendado pela filha, á espera que um conhecido passasse. Ás vezes consummiam-se os dias e elle sem dinheiro para pão -- porque os corações são de pedra. Rondava n'um desespero pelas ruas. Não encontraria acaso alguem que lhe valesse? Despediam-n'o, e elle fazia-se mais humilde, sem odios, pedinchão e sempre a suar. Já não tinha que pôr no prego e muitas vezes se lembrava da morte.

Oppresso o coração, voltava, lá ia á espreita, n'um desespero sem fim. Ao chegar a casa, suffocado, pesado, a mulher que o esperava n'um transe, perguntava ao avistal-o:

-- E então? então?

-- Cá está, mulher! cá está!

Ó descançar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir áquella fadiga de lagrimas, esquecer as humilhações, as horas amargas passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o escarneo!...

Que mal fizera elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem tregoas, com a fome e o frio e a sua filha desgraçada? E nem na propria casa o Gebo descansava. Eram infindaveis os ralhos e os gritos. Só Sofia, linda e triste, pela sua resignação lhe dava animo. Se não fosse ella, seria tão bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos e seccos como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e não lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na desgraça, gordo e picaro, atarantado e pedinchão, com uma unica idéa ao acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.

Já cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam pelas mesmas afflicções. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro frio, que só a miseria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela realidade, e a Desgraça alli presente parecia rir-se. Gastavam as ultimas roupas, faltavam já trapos usados e elle de cada vez mais gordo e mais molle. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos tres juntos, aquelle riso fazia mais afflicção do que as proprias lagrimas. Muitas noites não se accendia o lume e por fim todos tres dormiam n'uma unica enxerga.

A ultima coisa vendida e que lhes custára as derradeiras lagrimas d'olhos ardidos, fôra a pequena casa e o quintal, que de paes para filhos até elles viera. Succumbiram ao terem de deixar para sempre as arvores, que tinham plantado por suas mãos, a horta, o fio de agua da bica, as fructeiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fôra levado, como uma parte do seu sêr, que lhes lembrava os dias de felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a luzir.

A mulher já não ralhava: tombára, com o olhar desorientado e os dias gastos em monologos desconnexos. E elle ficára, amolgado pelos encontrões, gordo e ridiculo.

-- Ó Gebo!

-- Anh? anh?...

XI

LUIZA E O MORTO

O ladrão escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira, andára e n'essa noite, com um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fôra dar ao caes. O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A agua á noite assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cóva. O rumor das aguas lembra um ruido de vozes a concertar baixinho coisas presagas.

Estava uma noite de silencio humido e abafado. Brilhava uma luzinha ao largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades poídas do caes. E era no ermo o unico ruido, aquella respiração estrangulada, apressada, um marulhar humano e tragico na noite funda, silenciosa e opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão -- o seu jantar -- e teve um ah! de allivio. Alli ninguem o procuraria, era como se estivesse sepultado no fundo do rio. Havia quasi dois dias que não comia e ia emfim dar a primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doridos e sentia uma lassidão enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido, abandonado. N'um sobresalto, de pé, com o pão a que ia dar uma dentada na mão, perguntou:

-- Quem está ahi?

Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.

-- Ouh!

As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava encharcada e frios os pés.

-- Estará morta.

E socegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a mexer-se.

-- Outra desgraçada... -- scismou -- Quem está ahi?

E, sahindo da treva, uma voz de creança, começou:

-- Sou eu.

-- Tu quem és?

-- Não sou ninguem.

-- Que estás aqui a fazer?

-- Não estou a fazer nada.

-- Tu que queres, então?

-- Vim deitar-me ao rio.

-- Ah!...

-- Mas tive medo. A agua do rio sempre é mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a prégar. As nuvens baixas envolviam-nos n'um fluido negro, ambos tragados pelo deserto da noite. Não se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e baixinha, a outra rouca, eram como o dialogo de duas forças ignotas, que o acaso rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:

-- Como te chamas?

-- Chamo-me Luiza.

-- Quem te fez mal?

-- Ninguem. Estou gravida.

-- Ah!...

-- Estou gravida. Eu não sabia nada. Estou gravida, acabou-se. Porque é que não ensinam á gente que todos nos querem fazer mal? Uma pesssoa devia aprender.

-- O quê?

-- A ser desgraçada. Ha dois dias que não como. Tenho andado por ahi. Botaram-me fóra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.

-- Vae p'ra a tua casa.

-- Eu sou do Asylo, não tenho ninguem, nem mãe, nem nada.

-- Enganaram-te?

-- A mim não, ninguem me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do Asylo não sabia nada. Um dia appareci gravida e pozeram-me fóra. Ninguem me quer assim. Quando a gente está gravida que ha-de fazer? A gente não tem culpa...

-- Não fizesses o filho.

-- Eu era uma innocente.

-- Ah!...

-- Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.

-- E então?

-- Deitaram-me fóra do Asylo e fui servir. O patrão foi quem me logrou.

É sempre o mesmo caso banal e tragico. Se o homem encontra uma pobre creatura desprotegida e ao desamparo, illude-a e explora-a. Sahida do Asylo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor, foi servir. Logo que o patrão viu aquella rapariguinha ao abandono na terra, poz-se a falar-lhe baixo, ás escondidas.

-- Era como se me pizassem o coração...

Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes agudos d'esfaimada, ficava muitas horas scismatica e a falar sósinha. Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo á terra com este destino amargo -- ser explorada. Elle deixou-a logo e ella continuou a servil-os, com o mesmo sorriso, mais descórada e triste. Um dia acordou gravida e a patrôa pôl-a na rua. Remexeu-lhe a trouxa e gritou:

-- O que tu merecias era ir para a policia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço poz-se a andar pelas portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.

Callou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio prégava. Tu, rio, que carreias nas tuas aguas, para assim falares toda a noite? Levas lagrimas comtigo, raizes, cadaveres: moeste pão, encharcaste terras, humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado, foste romantico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro, e a tua voz tornou-se presaga. Levas lagrimas salgadas ao seu destino, tudo levas, ais, confissões, restos, para o profundo mar. Que dizes, rio? que prégas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano largo, a fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo por fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas, outros sonhos e raizes na mesma condemnação eterna e n'um trabalho insano? É isto? É para moeres pão negro, passares por troncos conhecidos sempre rio, mar profundo ou nuvem?...

Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na agua um fio d'oiro tremulo, de todo se sumira. Então o Morto no silencio e no negrume, começou:

-- Tu que imaginas que é isto?

-- Isto quê, senhor?

-- A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres; os pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

-- Todos?

-- Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quizer. Não grites que é peor. Ninguem te acode.

-- Eu não grito.

-- A tua mãe botou te fóra, para não te crear, o teu patrão enganou-te. Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixal-o enganar-te? Que has-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...

-- Quem? perguntou anciosa.

-- A fome. Has-de andar por ahi até cahires de velha, aos pontapés e ás voltas com a desgraça. A desgraça é que póde tudo, ninguem no mundo tem mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

-- Ó senhor! ó senhor! Mas então para que me crearam no Asylo? Era melhor terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguem. Que hei-de fazer? Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Ha dois dias que não como.

-- Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

-- Para me afogar... Mas tenho um medo á agua!... Quando metti os pés no rio tão negro, fugi... Ó minha mãesinha!...

E tombou para o lado.

O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda por crear, enregelado e transido.

-- Tu que tens?

-- Nada. Fome.

-- Toma lá o meu pão.

E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.

XII

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Em todo o caso se a immortalidade existe deve ser bem differente de tudo o que se tem sonhado.

Ser despedaçado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o homem grande, porque abala e acorda vozes adormecidas.

Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é bello -- até o crime.

Não importa saber donde nasceu a idêa da immortalidade, o que importa é saber se a immortalidade existe. Todos a sentem até os mais materialistas, todos sabem que ella brilha no fundo do nosso sêr. Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras, explicações mesquinhas, o que não podem é arrancal-a. É como certas arvores que, deitadas abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as extinguir seria necessario tornar esteril a terra.

Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ella remexe sob todas as cinzas.

Mas que immortalidade?

Tomo tudo a serio, até as coisas sem importancia -- outra razão para ser desgraçado.

E quando é que eu cumpro o meu destino? -- dirás. Interroga-te.

Se as arvores não fossem necessarias, existiriam arvores? Se os criminosos não fossem necessarios existiriam por ventura criminosos?

A educação que nos dão o melhor que ha a fazer é esquecel-a. E esquece-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa á parte. A que adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a verdadeira.

O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento, os seus erros -- e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.

Acho que, ao contrario do que se diz, não sou amigo de ninguem senão nos primeiros tempos. A principio os angulos não apparecem ou disfarçam-se. Depois começamos a ser duros.

Creio que só ha amigos até aos vinte annos, quando ainda se não pensa na vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que atravez da vida a serio e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.

Não, a morte não destroe a essencia da vida, mas desorganizando uma forma destroe a consciencia d'essa forma, que é formada de milhares de consciencias...

A acção do que se chama espirito sobre a minha materia produz o meu eu, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma força tira harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que resta, pois? A essencia da vida?

A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.

Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se cumprir o destino para que se nasceu.

Que idéa tão falsa a de se suppor que a vida tem um fim -- a felicidade ou a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?

Se a vida tem um fim -- é viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para que fomos nascidos. Isto é logico, inevitavel, maior decerto do que o que suppomos, mais bello, mas cêdo ainda para se entrever.

O homem é uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um fio que a emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouço assim correr a minha existencia...

Um dia a fonte secca-se.

A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer não. O homem não é senão a essencia do universo e nasce para que tudo tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.

Não, não é justo que a gente morra de subito sem protestos, sem palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais, não se vê, não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem habitos -- é não viver. Morrer quando a vida continua da mesma fórma harmonica e impassivel -- eis o horror.

Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma outra vida senão a sua vida.

Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é por habito ou por interesse: é por calculo. Se queres continuar a amar os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e passas a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar, vencer -- e cada um n'essa edade é o que é. Já se não amolda: é um ferro desembainhado, sahido da forja; tem já os seus habitos, vaidade, mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu; é de pedra.

De fórma que se quizeres viver com os outros tens de representar. Da tua edade ha centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim. Adiante de ti estão os homens de quarenta annos, que é preciso arredar, conquistar ou illudir. Cada um d'elles é de aço. Para triumphares tens de os lisongear, tens de ser elles e não tu...

Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem agradar. O triumpho pertence não aos mais fortes, nem aos mais intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pódem ser todo o mundo...

Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual á do homem que precisas conquistar.

Sim a vida é uma tragedia esplendida, com todos os seus crimes, sonhos, odios. Falam em nós as montanhas, as arvores, as nuvens, e fala até, n'um murmurio, o que é ainda desconhecido.

Que é preciso para que cada um se encontre? Que é preciso para que as arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera -- a Dor.

Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dôr, e até nós veiu como o murmurio apagado dos seus gritos.

Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as mãos até as ennegrecer, na agua que m'as banha; no ar que respiro; no sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou grande não importa.

XIII

ESSA RAPARIGUINHA...

Quédo-me a scismar tão sósinho n'este velho casarão!... De noite ouço vozes, logo suffocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se põem a prégar dentro em mim. Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.

Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas, alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei, por demais conheço a fórma porque as ideias se ligam, até as mais contradictorias, e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do fundo do meu sêr que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um phantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um estalido atraz de mim alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, já a pensar n'essa pobre creaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados, podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:

-- Abandonada! abandonada!...

E no emtanto o facto em si é simples e banal, vulgar como essa rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o nome, porque nem sequer lh'o perguntei.

Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao encontral-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando na tristeza das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu, levando-a para a casa de passe, sentia, não orgulho nem prazer, mas oppressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre d'ella?

Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a rapidamente, dando dinheiro á mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi como quem foge ao remorso.

Mais nada. Porque é então -- e já lá vão muitos annos -- que a certas horas de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas, o sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva, todo dorido da vida?

Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um sorriso tão triste que me piza o coração.

Arqueja o lume no escuro todo povoado de vozes, que vão prégar, mas que logo se callam suffocadas. A ventania passa lá fóra e na escada soam os passos do gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico sósinho, a scismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume que esmorece...

Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...

Na verdade não conheço outro homem tão nullo, banal como a propria banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de odios. Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez algum bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de todas as creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta: enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas philosophias o ensinam) é de quem possue a força e aptidão... Mas hoje estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho n'este velho casarão. Parece que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!...) encontram emfim palavras e se põem a falar dentro em mim.

É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a scismar na vida d'este homem banal como a propria banalidade.

Nem sei como conte, com que palavras faça a narração d'uma existencia, que é como um trapo que se deita fóra todo molhado de lagrimas.

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe e incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E não faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o. É por isso que elle, ao saccar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.

Quem foi a tua mãe, ó S. José?...

Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.

A Rata é sua egual, tão maltratada pelo destino como elle. Foi sempre assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar. Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com quem casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S. José conversa ás vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as pedras, os sêres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem se queixam -- e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de pae.

-- A gente é pobre -- diz elle.

-- A gente é pobre -- torna-lhe ella. -- E ás vezes passa fome.

-- Passa.

-- Quando a minha mãesinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus trabalhos. Tudo se acaba um dia.

-- Peor do que isso é não ter ninguem. É peor do que a fome.

-- É o peor de tudo.

-- Que se ha-de fazer?

-- Sabe vocemecê? olhe que eu ás vezes ponho-me a scismar porque é que a gente soffre...

E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lagrimas que ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos, ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja o lume e o predio sob a ventania arqueja.

Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na escuridão como um brazido de gritos.

A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria cresceu. Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou, sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra, sepultada na terra, veio ter este destino -- abrigo de miseros.

Ao pé da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella retempera-se. As suas raizes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quasi cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. Só elles prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno o granito augmenta, qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital tem raizes em toda a cidade.

A Arvore é quasi uma construcção. O tronco é corroido e as pernadas em cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vão sugar no Hospital. Com os annos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.

E para lá? o que ha para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de arvores, murmurios de fontes, o halito das plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...

E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até ás suas raizes mais fundas.

Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouço o esforço que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae esmorecendo...

Grito! É sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra, pallida e triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de lagrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Eil-a! eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na escuridão uma poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...

Toda a vida é uma construcção de gritos, a cada passo para a frente ha sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?

Não é odio que ella tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto molhado de lagrimas, é triste mas resignado. No emtanto o remorso acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada até aos ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?

Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende. Descalça caminha pelas ruas desertas á chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de soffrer e de se resignar á brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de se affazer a ser explorada, á mentira, á infamia... E assim caminha, ensopada de lagrimas, afundada na desgraça pelos que passam e riem; assim vae pela vida fóra até onde?... Até onde?

Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita n'este valle de lagrimas! A esta mesma hora quantos berram espesinhados, sem mão que os ampare? De que servem os gritos, não me dirão?... Aquella restea de lume é como o ultimo fio d'uma alma que vae findar!...

E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso resignado de quem já presente o que a espera -- quantos gritos! quantas lagrimas pela existencia fóra!...

Cerrou-se de todo a escuridão. Suffoco!...

XIV

O ESCARNEO

No ermo da noite o Gabiru vae tecendo a sua teia:

«A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e calháos, torrente que leva comsigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo infinito fóra, não é indifferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma fraga. Não é o acaso que reune ou afasta as moleculas, para as fundir n'outras fórmas. Ha corpos que a chimica não consegue ligar, porque os separa o odio, e outros que se reunem com soffreguidão.

Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas, até que se encontrem as que se devem juntar. O meu coração unido ao teu ha-de florir n'um simples espinheiro. Será n'um sitio pobre, mas alguem que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu cerebro procurará o teu cerebro para vogarmos juntos na mansidão d'um rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente até dar comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.

Creaturas simples vão ser arvores que de anainhas a gente se sente commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias eternas, serão construidas do coração dos máus.

Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago como tu, passo os meus dias a contemplal-o!

Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...

Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a consciencia do universo, o que se não comprehende: um deus reles, com miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado pelos tombos.

Sê sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.

Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o espirito.

Já ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem duvidas ou tremessem de pavor?

Vêr o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar, comprehender calháos, almas, ter raizes em todas as estrellas, no céo e no oceano -- é o portentoso sonho.

O homem arranca de si proprio universos de belleza.

O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado e enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que a materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde tinha sahido.

Creamos cada um de nós um universo d'angustia ou de belleza, resequido ou de fogo. São felizes os bons portanto. Ha no emtanto creaturas que vivem sem suspeitarem que o universo existe.

Ás vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como n'um punhado de desprezivel terra ha uma força escondida. Parece inerte. Esperae, porém, que março a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre timido e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e esses amores entre um philosopho esfaimado e uma mulher da vida, tinham não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguem encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera -- caso unico -- o vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no saguão.

Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a fé não transformam o mundo até ás suas mais profundas raizes? Quem diz que se não podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos palacios ou estrophes de luar?

As suas theorias, as suas idéas ia-as tecendo e olhando a Arvore. Pelo tronco corriam já estremeções: os gommos pareciam envernizados. Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua, mas -- como direi? -- vestida de emoção.

-- Aquella Arvore... -- murmurava elle scismatico.

Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? São feitos de pedaços d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem são o Riso e é como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Têm olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que já brotou para soffrer. É a Noite que anda a architectar de neblinas os seres destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza indifferente, é porventura necessario e fecundante?....

Todos os dias o Gabiru lá vae sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões e os soldados, que á noite surgem para se rirem das lagrimas e dos gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que só ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste, põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu sonho. Toda a noite é uma mistura de gritos, de lagrimas e risos. Espancam as mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas como a terra, todos elles riem, com um anh! de satisfação por as fazerem soffrer.

Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem vêr nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece, tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:

-- Ó tu!

-- Anh?

-- Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repellão se erguem.

-- Esperem... Tu não ouves?

-- Anh? -- diz elle, acordando estonteado. -- Anh?

Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas, como se tivesse vontade de maltratar, clama:

-- Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...

E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas como o chão:

-- É o poeta!

Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge. Vão-se rir, vão espesinhar. Logo o côro de gargalhadas e de gritos esturge.

-- Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.

-- É o enguiço, -- diz a Mouca.

-- Olha lá -- avança outro -- onde mettes tu essas pernas?

-- Anh? -- pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.

E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre, á luz do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os seres de descalabro, as caras dos ladrões. Ha physionomias de pavor e em semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas, só boccas. Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que só admiram a força.

-- Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Elle espantado accorda:

-- Anh?

Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê a realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres acha-se transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vão fazer mal. Vão-se rir do que é pobre e desageitado; vão-se rir do que não comprehendem -- do sonho.

-- Acho que é poeta!...

E os ladroes ululam. O riso é odio, o riso ignaro é odio da materia contra o espirito. Tem este nome -- o escarneo. Ajuntam-se os ladrões e as mulheres para gargalharem d'aquelle sêr encolhido e tôrto.

Tem passado fome, tem vivido só com pão e scisma, preso a nuvens e de subito dá de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos gritos, da tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Tambem.

Os ladrões e as mulheres têm vontade de espesinhar porque odeiam e não comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as mais amargas catastrophes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a ulular que a materia ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto -- e do que é bello como os astros.

Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a tragedia humana.

-- Diz que estás apaixonado?

O Gabiru calla-se.

-- Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É d'esta que tu gostas?

-- É de mim? pergunta a tisica e tosse, rindo-se. É de mim? -- Está ao pé da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de o tornar razo como elles...

-- É por esta? Não? Então tu imaginas que ha alguem que goste de ti, meu desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei que parece! Ahi vae o poeta!...

Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vae de mão em mão como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais reles, mais triste, mais pobre e transido, por não lhe poderem tirar o pão da sua vida -- o sonho.

-- Ahi vae o poeta!...

Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rôta, amolgado, exclama, não comprehendendo:

-- Mas eu que fiz? eu que fiz?.... -- Vae rir? vae chorar?....

As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas más clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e vê-a rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido espanto.

-- Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!... -- diz, apontando a Mouca.

Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de tudo, da vida, da morte e até da propria desgraça.

-- Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta! -- gritam todos á uma.

-- Que é? Deixem-me!...

E scisma.

Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em quê? Em coisas desligadas, sem nexo: na ambição, no odio, no exaspero. As ruas seguem monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo bem: é a sua sombra que eu vejo, comica e desengonçada e, ao passar pelo lampeão ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella sombra agita-se. Mexe os braços, com o chapeu na mão, fala sósinho, discute... Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte a prégar por entre a casaria e o ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do céo.

Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta para traz, ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os cabellos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.

Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas afflicções.

A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casarões alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfão de luz. A sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o seu sonho ou a sua desgraça.

Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o aguaceiro, espapaça-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos escondem-se as mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes, escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...

Que me importa o que os outros soffrem? Uma desgraça? O mundo está cheio de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho. Este mesmo céo pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado sempre gritos e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropeça, cahe; depois lá se arrasta tropego.

Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio, pelas ambições, pelos rancores...

Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado, exhausto... Ao romper da manhã começa de novo a chover e elle chora.

Tanta lagrima! Um dia a desgraça, no outro a desgraça... Aquella sombra é a minha! aquelle homem sou eu!...

XV

FALA

Falo. De subito a minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno, pardos e monotonos, em que até o resquicio de sonho, que acaso coube em sorte ás pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca o riso que ia rir, e accudiram-me idéas em que nunca tinha reflectido... Alguem abala uma arvore até ás suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a terra revolvida dá foi o meu grito.

Dêm-me a vida que devem viver os sêres e as coisas, a quem ninguem ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sêr: não fingir, mas sêr, não viver da tua vida, mas da minha propria vida.

O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma, que até ahi não tinhas encontrado, toca a loucura -- mas depois ouves falar dentro em ti tudo que estava para sempre adormecido...

O que é isto -- o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por ventura as arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o coração. Riram-se de mim! riram-se de mim!

Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido, vão, construido de palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.

O homem só é feliz quando é elle. Os outros é que o empurram para a desgraça. O homem precisa de se encontrar.

Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz -- dizem. Deixem-me ser desgraçado á minha vontade!...

Qualquer arvore incha, cresce e por tal fórma se liga á terra, pelas suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na minha vida não ha raizes. Amigos não os tenho nem os quero, e tudo me parece pardo e inutil.

Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me commovi como deante da arvore mais humilde.

A desgraça que eu tenho encontrado não é a desgraça, nem isto é a felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a vida; quero o meu quinhão tal como o têm os miserrimos bichos, os montes ignorados e os pobres...

Ou vou morrer sem ter vivido.

Só em pequeno é que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro á essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos, o cheiro a bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me fazia scismar na vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam sem remorsos.

O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar, voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e céo azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz palpita. Um risco d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações, cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.

Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho, uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a agua sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á farta a terra negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas espalmadas e carnudas que dá uma sombra subterranea. Todo o quintal esfurancado pela agua resôa como um cortiço. Scintillações, rumores por toda a parte, por toda a parte a solidão.

Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia d'uma vida convencida, forte, bravia...

Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei sabor á vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...

Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça não são verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, só mascaras que afivelamos em determinadas occasiões, porque os auctores, os amigos, todo o trama complicado em que nos enredam, nos ensina: -- Em tal situação tu serás feliz...

E nós realmente, por habito confessamos: -- Sou feliz...

Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...

Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser só.

Para que me chamam o Gabiru? Mettido no ultimo andar do Predio, ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade, para conhecer a realidade. Deitei fóra o que aprendêra, combati commigo mesmo...

Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...

XVI

HISTORIA DO GEBO

Assim a miseria foi crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para onde a sorte os atirára n'esse inverno. Muitos dias lhes faltava o pão e o frio era tanto que não sahiam da enxerga. Viviam mais pobres que os pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de manhã escovado, limpo, com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia lhe ainda a mulher:

-- Homem, vê se te dão um emprego...

-- Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te afflijas, mulher.

Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e ridiculo, envelhecido e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado, todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atraz d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar -- de cabellos brancos estacados.

Um dia andára, rondára, a tresuar d'afflicção. Todos o repelliam. Era em certa terça feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:

-- Então? então?.... Arranjaste?

Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe acudisse na sua miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquelle velho ridiculo e gordo, estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo palavras desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido, escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem, n'uma afflicção de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e amargurado pão, e elle nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa noite -- terça aziaga -- se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos farrapos na lama.

-- Então? arranjaste?

-- Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apezar dos ralhos, todos tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A desgraça anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se, chamou Sofia para lhe dizer baixinho:

-- Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.

Desde então ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados, seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de luctar um dia e outro com a desgraça sempre, depois d'uma vida de desespero. Ella era o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impellia para a vida; era ella quem disputava -- em vão! -- braço a braço com o destino ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta. Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de tombados.

Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, ficára branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava e scismava: -- Amanhã lá tenho de ir á procura de pão... -- Sempre a mesma vida, sem tregoas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam: -- Para o anno, talvez para o anno a má sorte se canse de nos perseguir... -- E assim se gastára a a ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a esperança murchára. O velho ouvia risadas na noite profunda e boccas a clamarem:

-- Ó Gebo! ó Gebo!...

-- Anh? ahi vou! ahi vou!...

Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e elle ficou abraçado á filha, soluçando.

-- Se Deus nos levasse!...

Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar pela mão como quem guia uma creança.

XVII

O QUE É A VIDA?

O Gabiru não entende a existencia. A sua alma é como uma penha ferida, que se desfaz em agua. Acha-se de repente n'um pelago refervendo oiro. Descobre torrentes impetuosas de odio, torrentes d'escarneo, a Arvore, as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde? para onde corre tudo isto? A Morte ao lado d'uma arvore cheia de flor. Um cahos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indifferente... Ao dar de cara com a existencia, transido, ao vêr-se escarnecido entre a Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua cabeça a abobada do céu arqueja, carregadinha d'estrellas -- e o homem queda-se inconsciente? Ha o escarneo, pedras, constellações e o mar profundo e o homem continúa impassivel.

O que é isto? o que é a Vida? o que é este mysterio onde o homem entra como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma arvore cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco se espelha o sol e tumultua a materia em combinações infinitas -- e o homem segue o seu trilho inconsciente!...

O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem realidade? O que pratico sobre a terra é indifferente ou vae repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, apparencia ou temerosa realidade? E o escarneo e a agua a nascer fulgindo d'entre a terra, o amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão d'almas e de pedras, d'arvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplendida caminha para um fim de belleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulchro fechado, ou vivo da verdadeira existencia?

E os pobres? porque é que os pobres soffrem sem gritos, revolvidos como a terra por este arado ferreo -- a dôr? Só se vem a este mundo para gritar?

O Gabirù via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem pão, escarnecidos, tombando sem gritos? Porquê tudo isto? Para que soffrer? E toda a sua philosophia tombára por terra...

Reuniu os desgraçados para saber; foi perguntal-o ao Pitta, ao Sabio, ao Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas as bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.

Partindo, para essa reunião, o Pitta e o Sabio falavam:

-- Só sabem sonhar e depois...

-- São homens extraordinarios, affiançou o Pythagoras.

-- Veja você... Querem que se lhes explique, o quê? A Vida! Já o outro é assim.

-- O homem do pacho?

-- Sim, esse... -- e a voz do Pitta transiu-se -- Na verdade existem terras prodigiosas, chãos que só dão sonho. Ha sêres inteiramente edificados de nevoa, creaturas cuja alma subterranea se creou na humidade e no silencio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma assim cresce á solta, branca de certo e com uma forma inexplicavel... São sapos de sonho.

-- São sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma creatura se arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas d'isto, do convivio com isto, -- a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um oceano? Não a vêr, não a ouvir, não a sentir correr continuamente, toda d'oiro e de verde, com mil formas, mil sons differentes... Você comprehende?

-- Comprehendo.

-- A mais mesquinha terra géra mysterio. É tão admiravel e sempre tão diversa, como isso a que você chama o infinito.

-- O quê?

-- O infinito. É ainda mais maravilhoso que o proprio maravilhoso, porque a realidade é sempre maior que a phantasia.

-- Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou já na trigessima licção... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma estatua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só o vejo nas trevas...

-- É horrivel?

-- É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!

O sabiou parou, olhando-o com admiração:

-- Você, Pitta, afinal é um experimentador.

O Pitta sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modestia:

-- Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para não sentir a piedade dos outros. Na treva não se vêm olhares de piedade ou risos. Cada um pode esquecer a sua miseria, á forca de a esbrazear. O seu sonho é subterraneo, sabes?

-- Sei. É como o das plantas cortadas, só raiz, e que ficam vivas debaixo da terra, com a vida sufficiente para sonharem em crescer e botar flor. No tumulo scismam no ar azul -- e nunca deitam haste.

-- Assim é o seu sonho. Depois de que vida desesperada se fechou para sempre? Talvez outrora perdido buscasse á noite alguem como elle, para se amarem... Rondou com os sapos, que só apparecem a noite, porque são grotescos...

-- Mas os sapos encontram sapos com quem se põem a falar d'alguma estrella e elle...

-- Elle foi feito para viver na solidão. E que fome! e que sede! Agua, se ha agua no universo, o que elle mal presente, quer vel-a jorrar inexgotavel entre as suas mãos, cheia de scintillações e murmurios; montes, se ha montes, quel-os subir e calcar sob os pés; e as arvores, e o ceo, e as mulheres com toda a sua immaterialidade de flor. O pequename vê lá!... Da terra não conhecia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o universo para logo se emparedar. Só sabe o que é o sonho. Refugiou-se em soffreguidão no sonho -- e sonha tudo. Calafetou-se e ainda hontem, imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um cabello de maio, elle teve um sobresalto e disso: -- Eis talvez ao que chamam o amor. -- Mas aquillo fel-o pensar na sua miseria e tentou em vão quebrar esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado tudo, a natureza, a vida, mas elle só quer sonhar.

-- É que o sonho é o pão dos desgraçados. Todas as creaturas que soffrem refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a sonhar...

Meditaram. Depois o Pitta com tristeza affiançou:

-- Amigo, só nós é que já não podemos sonhar...

-- Nós não, nunca mais podemos sonhar!...

Eil-os reunidos aos desgraçados e todos se põem a falar ao mesmo tempo. Nenhum quer ser o que é, e cada um para seu lado accusa a vida. Ha-os que têm inveja dos poentes, das pedras, das aguas.

-- Para quê ser homem?

-- Ninguem sabe.

-- Quem déra não sentir, andar como anda a essencia do tição ardido, perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de agua ou no fundo do mar.

-- O que é a Vida?

-- Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez um sonho. Olhae o universo, que amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sêr que sentes deante do temeroso universo?

-- Tudo é chimica, -- disse o sabio profundo.

-- Eis um sonho, -- affiançou gravemente o Pitta.

Só os mais pobres, arredados a um canto não diziam palavra, porque tambem só os pobres na vida sabem soffrer.

-- Mas então mais vale a morte.

-- Pois mais vale.

Põe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Ha feições consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e grandes de martyres e de santos. Só elles sentem o mysterio da vida; só elles gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.

-- A vida, concluiu o Astronomo, só vale passando-a a sonhar, embevecido n'uma obra.

-- A sonhar não!

-- Eu queria ser poeta... -- torna um.

-- Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas crear uma nuvem... E encadernal-a. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto... -- disse o Pitta.

Soára a hora da vida, em que, todas as illusões cahidas, se scisma ou na morte ou n'um crime: a theoria em que consumimos annos vividos de existencia, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido de paixão e de gritos, mirrado; o sonho exhausto: cada um d'esses homens assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o poder. Só o Pitta, outr'ora tão materialista, protestava em nome do ideal.

Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um palhaço, a quem chamavam o Corsario, o Sabio começou:

-- Só a chimica existe, creia, madama. No fundo de todas as acções e de todos os phenomenos, só encontramos a chimica... Na primavera e no odio. Vocês nunca viram lá fóra onde existem arvores?... Sim ha arvores e aguas... Ahi n'estes dias de chuva a terra é como um laboratorio immenso. Tudo se envolve em agua, arvores, matto, campos ensopados: nos montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Billiões de gottas. E de toda esta lama, das folhas seccas arrasto, da terra inerte se obram prodigios: reacções, transformações, a vida emfim. Vocês nunca viram uma grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É herva nascendo... Pois é feita de chuva e terra... Das arvores -- sabem? -- cahem gottas mais grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro enebria. Imbebem-se os troncos, o humus, as raizes, as pedras, para se desentranharem depois ao sol, n'uma vida furiosa.

-- Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importancia... Mas não é tudo: o infinito existe...

-- Onde?

-- Onde? Onde não sei, mas é lá que vive a alma d'aquella pobre senhora que eu outr'ora amei desesperadamente...

Os pobres do seu canto escutam em silencio, attentos aquellas creaturas nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade, a desgraça e o proprio sonho, constróem os seus typos. Marcam-nos. Triste é chegar aos quarenta annos imbebido n'uma chimera, todo em brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um punhal. A multidão ri, escancara-se deante do teu poema, do lume que comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te appareceu como um fructo, arredaste-a, para só pertenceres á tua obra: o riso desprezaval-o: annos, pendurado n'um telhado, viveste absorto: queimaste o que em ti havia de melhor: déste-lhe os nervos e o cerebro, e quando surgiste emfim, exhaurido, e prégaste á multidão -- eil-o o poema! -- tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é peor, viste que o brazido da tua obra era apenas terra inutil -- pedras. N'essa hora amarga, a tua alma desmoronada e a tua physionomia adquiriram um endurecimento e uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma physionomia dilacerada. Começas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho te é possivel: só o alcool te dá ainda illusões, e as conversas desesperadas, monologos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os illumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em pedaços arrancados ao poente.

Para o Corsario chegára a velhice: desdenhavam-n'a e ella mergulhava no odio; ao Sabio cahira a sua theoria; o Pitta empobrecera; só o Astronomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicidio?... Quantas vezes todos juntos tinham discutido a morte!...

-- A nossa desgraça, rompeu o Pitta, é a falta de dinheiro. Com oiro triumphariamos ainda.

-- Com oiro! berrou o Corsario.

-- É que, respeitavel madama, hoje elle é o unico poder, a grande força. Permitta-me que lhe affiance: é Deus. O oiro é tudo!

Cada um ruminava as suas idêas sem se importar com o Gabiru. Do saguão vinha um rumor de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas á sombra, queriam entrar na alluvião eterna.

-- Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.

-- Enforcado não. Lembra um palhaço. É a morte a deitar a lingua de fóra aos vivos, um trapo pendurado... É afflictivo e dá vontade de rir.

-- Já tenho pensado n'isso. Eu, por mim, escolheria a agua.

-- Um horror, a agua!... O corpo arrolado, a lama das marés...

-- Perdão, no mar largo...

-- Uma bala, uma bala seria mais prompto. É até elegante. Repare que é a morte dos namorados.

-- E o veneno?

-- Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existencia, pelos banqueiros fallidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o veneno a mim atterra-me.

Ficavam um pedaço a scismar. O que os prendia afinal á vida? em que criam? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhára e aos quarenta annos já se não constróem nuvens. Só o Astronomo todo se consummia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.

-- Sonhar! sonhar! -- prégava.

-- Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida só o oiro vale.

-- Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na solidão, e a vida para mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este casaco que de gasto nem sequer me aquece, comprehender a existencia?.... D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilhão d'astros... Quantas riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma arvore sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e eu pobre, transido de frio, comprehendo e vejo!... Depois, se desço cá p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no céu.

-- Mas a natureza... -- disse o Pythagoras.

-- Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é bello: é tudo d'oiro e verde. Sei que ha arvores, o mar, rios, mas nunca ninguem os viu ao pé...

-- Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!

-- Na minha pobre cabeça tudo se confunde.

-- Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!

-- E que querem que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem sei falar...

Falavam do suicidio, riam do Astronomo -- um sonhador! -- e no fundo todos temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era desesperador. O que haviam tentado realisar, esse esforço para materializarem a propria alma, que outra coisa não é crear, déra-lhes como resultado um bloco gelido e informe, talvez vivo mas em bloco. Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os aterrava, a morte que era o nada para todos, até para o Pitta então idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existencia não era de certo como elles a haviam comprehendido: alguma coisa lhes falhára. Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na sua roupagem negra, com todo o seu mysterio e toda a sua belleza. Ella põe, até no homem que na terra representa a omnipotencia, o banqueiro, arrepios de allucinação e terror, quando acaso a Havas diz á Terra que um Rotschild acabou de uma fórma identica á d'um pobre diabo ou d'um poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim é indifferente ir apodrecer n'um palacio de marmore ou na valla commum: ella mistura pobres com ricos, heroes e scepticos, egoistas e santos, e d'esse oceano negro não sahem nem gritos, nem bençãos, nem palavras. É o formidavel, o mysterioso silencio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente, diz La Rochefoucauld.

Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!... -- Ella impõe-se ao homem, negra e ferrea: quasi sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de relampago. Nada lhe escapa, e, se para uns é madrastra, para outros é noiva. Ora avança como uma furia, ora coberta de flores como abril.

As creaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos, párias, esperam-na como a redempção. De tanta lagrima, de tanta aspiração, alguma cousa se deve ter creado no infinito...

Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aquelles para quem a vida é aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde o mar desconhecido rola as suas ondas silenciosas, vêm-no dourado, cheio de claridade, n'uma madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que não tenha sido torcida e despedaçada, sem bocca para gritar -- elles sabem-no -- vão erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma viagem de maravilhoso sonho. Para os scepticos esse mar é negro, tumultuario, de horror, como aquelle oceano nunca d'antes navegado, onde só monstros cresciam.

Para elles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da verdadeira existencia. Eil-a a cova, a immobilidade, o Nada.

A differença é simples: ella é termo de miserias, ou o termo do goso.

Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os humilhados, os offendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos porque ella liberta, e até os incompletos, aquelles a quem não é dado nem sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada um encontra n'esse pelago o que lhe falta na vida...

-- Este fim para que nós caminhamos, com terror e angustia quasi sempre, é o termo da vida? é o inicio da vida? -- perguntava o Pitta.

-- As philosophias e as religiões respondem. Cada uma assegura a fala. O mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão: escolher a melhor opinião e embarcar n'ella como n'uma jangada, para atravessar a existencia, -- dizia o Pythagoras.

Só o Astronomo lhes explicava:

-- A morte é a vida, -- cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do que é materia resultam bellas fórmas, arvores, nuvens, côres; da transformação do que é espirito alguma cousa de radioso deverá surgir...

Ha muito que eu conheço duas figuras, que atravez das edades, vem prégando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.

Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras d'uma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra préga, a outra fala entre desesperos e ruinas. Vós, meus amigos, conheceil-as -- a figura do Sceptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes typos da humanidade. Ás vezes confundem-se, misturam-se: cabeças de idealistas e corações de pedra. Acontece tambem que, quasi sempre, uma segue a outra, para derrubar ou para construir. Têm assim vindo pelas philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Platão, ora nas palavras de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espirito precisa de falar aos homens, cria uma bocca -- Jesus; quando a materia quer prégar -- apparece Falstaff.

Eu tenho-as ouvido dentro da minha propria alma, tenho assistido aos seus combates dentro do meu coração. Uma affirma, a outra nega. São duas grandes vozes, que nasceram com o homem.

Uma crê apenas na realidade, no universo tangivel, a outra põe mais longe os seus olhos -- no Sonho. O espectaculo doloroso da miseria humana, desola-a, mas não a faz descrer: -- Lá, lá, tudo se realiza e os proprios gritos são necessarios á Harmonia.

Uma é feita de sacrificio. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como lôdo, o infinito como fogo; a outra affirma-te que depois só o nada existe.

E assim é: o nada para que os que crêem no nada, a belleza eterna para os que para ella vivem. Nem era admissivel que milhares d'espiritos tivessem soffrido, cheios de abnegação, sem a terem creado, á immortalidade. Se ella não existia formou-se, desde que os desgraçados e os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da immortalidade tem sahido forças e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pôz a justiça eterna e a sua fé -- o infinito creou a.

Elles, porém, ouviam com temor estas palavras. Esse problema da morte, que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo á tona idéas, explicações, theorias, apavorava-os. As suas aguas acarretavam idolos, religiões, mantos purpuras de homens, que se debatiam, a gesticular, querendo comprehender, vêr. Ao pé d'essa figura negra e indecifravel, como no sôco d'uma estatua, havia sangue amalgamado com theorias, brazidos, lama, desesperos, que não conseguiam sequer pôr uma ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella enchia o céu, tragica e muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para lá caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, sceptico, desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...

-- Então a quem morre... -- perguntou alguem.

-- Acabou-se-lhe o sonho.

-- Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.

-- Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro Gabiru!...

-- O dinheiro!... -- exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.

-- Podesse eu ir á terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro até a fazer gritar! -- exclamou o Pitta. -- O oiro é a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria. Botam as arvores flor e as creaturas emoção... Tudo isso seria meu. Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da Conceição, seria talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrae-vos!... O mal a imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do heroismo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a crear para mim!...

E como o Pythagoras fosse a sahir:

-- Espera. Para onde é a ida, philosopho?

-- Prégo a revolução. Ando a prégal a...

E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:

-- Ao pequename! Rica idêa! E philosophica! Um grande elemento. Pois é atiçar-lhe!...

E sahiram ambos.

Então o Gabiru ficou sósinho com os pobres. Elles não sabiam explicar a vida: sentiam-n'a e soffriam. De pé explicou-lhes:

-- Foi assim... Disseram-me um dia: -- Eis aqui um thesouro, cava! E eu puz-me a cavar. D'um lado e d'outro accumulou-se a terra. As minhas mãos eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era profunda como um poço. O céu esquecera-o, as arvores esquecera-as. Um dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito, cá fóra, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o sol... E tudo era bello! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!... Attonito, com as pedras inuteis na mão, olhei... E assim desperdiçára a vida á procura d'um thesouro que tinha alli á mão!...

Ninguem lhe respondeu. Só o Corsario, curvando-se-lhe sobre o ouvido:

-- Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...

-- Que é?

-- É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te d'ella a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o odio, trocaste a realidade por nuvens.

E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como a agua que passa limpida pelas mãos d'uma d'essas estatuas que tu vês nas fontes. Nunca cessa, egual, fresca, cheia de scintillações, e nunca tambem estanca a seccura d'essas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as arvores são as mesmas arvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a! perdeste-a!...

-- E tu?

-- Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o que elles queriam era o marmore do meu corpo e a minha bocca moça e viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, secco e inutil, e então arredaram me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como póde metter-se uma nuvem dentro d'uma pedra resequida? Desci á humilhação, a procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fóra depois de servidas... Olha para mim... Envelheci. Ha muito tempo que móro com o odio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais secca. Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos desfructam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu odio murchará commigo, sem poder florir. Inutil, velha, cahida, quem toma ahi a serio o meu odio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria arrancal-o ás mãos dos pobres; seccos os meus peitos o leite iria roubal-o. Ella seria o meu odio vivo. E bella, para que me vingasse. Era forçoso que fosse creada como um lyrio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma alma de pedra, peor que a minha, mais má que a minha. Dir-lhe-hia tudo, ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi. Explicar-lhe-ia o egoismo, a vaidade e que no fundo de cada sêr só existe seccura e interesse. As mulheres se são honestas é por vaidade, e quantas ao pé do tumulo choram uma virgindade inutil!... Ella seria minha filha! A semente germinaria, cahida n'um coração mais duro que as pedras. Por dentro d'um corpo lacteo, haveria uma velha mais offendida, mais rancorosa que eu, a prégar-lhe o odio. Odiar-me-ia a mim propria, sua mãe -- e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...

Sahiu. Só os desgraçados ficaram encostados uns aos outros -- e a um canto os pobres, gastos, com physionomias de santos e olhos murchos de tantas lagrimas choradas. Não sabiam queixar-se. Alguns puzeram-se entontecidos a narrar, n'uma voz amarga -- a voz da desgraça. Erguiam os braços e de cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da guerra.

Um disse:

-- Eu gosto de vêr soffrer! eu quero vêr soffrer!... Como elle anda a espreitar illusões a vêr se as calca! Onde nascem flores logo as esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol ás levadas. Calca tudo e ri, tudo o que nasce, mesmo a ponta verde da herva que rompe d'entre as lages.

Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:

-- Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra, minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a vêr o sol.

-- Ha desgraças e dôres que fazem rir, -- diz alguem.

Outro ri, ri sempre d'afflicções, de catastrophes. Procura dores para se rir e doido eil-o a rir e a clamar:

-- Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de soffrer. Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?

-- Queremos ter saude e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude rir, -- préga uma bocca na escuridão.

O Gabiru sente-se agarrado pelo homem do pacho.

O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, atravez do pacho, parece provir d'um tumulo.

-- Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...

-- É impossivel...

-- Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se pódem rir -- e ser só, ser differente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta mostrou-me e depois, sabes? tive odio. Odio... Não eu não sou amigo do sol nem das arvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os outros se riem, os seus risos -- e eu sem bocca para rir!... Esta ferida come-me a vida -- e triste vida d'afflicção a minha! Fui sempre doente. Até em pequeno senti a piedade agazalhar-me. Porque é que Deus faz nascer creaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho frio e fome de sol, de saude, de forças, e vivo gelado, sempre gelado, e sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da terra onde nascem pedras e cardos, porque ella ao menos não soffre. Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer -- é certo? -- que até as arvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja, a dôr e a enfermaria, onde o proprio sol requentado sabe a hospital. E nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter bocca para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?

Arrancou o pacho e uma physionomia de tumulo, onde os dentes surdiam pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.

-- Olha! olha p'ra mim!...

Sahiram -- e atraz de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres, curvos, descalços, resignados. Havia-os gastos pela dor; havia-os tirando o pão da bocca, para o repartirem; havia-os com uma vida de lagrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.

Afinal todos se tinham ido; só na escuridão ficára uma velha prostituta. Era quasi uma coisa -- a podridão. Não sabia falar, nem sabia queixar-se. Tinha apparecido para dizer o quê? Que accusação tremenda contra a vida?

Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olhal-a. Depois perguntou-lhe:

-- Tu que tens? tu que queres? Vae-te!...

Ella não respondeu, e elle esquecido ficou muito tempo a scismar. O que era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe disse:

-- Mas então p'ra quê? p'ra que criam a gente. Eu tenho amargado a vida e nem posso gritar... E tu?

-- Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer é afinal reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e vel-o calcado!...

-- Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? Não me lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram de mim e toda a vida me bateram.

-- Tu sim, pobre de ti... E amaste?

-- Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que elles se riram! Depois de servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa d'uma desinfeliz? Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre anda um frio!...

-- Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal. E batiam-te?

-- Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não fazia mal... E a ti?

-- Puzeram-me a alma negra.

-- E tu?

-- Eu soffria.

-- Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos é feliz.

Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quasi cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde elles encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlas, restos d'um lar a apagar-se.

-- Ouve, não chores... Tens frio?

-- Estou gelada de frio.

-- Olha: soffrer não importa, soffrer na vida que importa? Tu imaginas que o que se soffre se perde? As lagrimas e as dores vão crear, para depois, alguma coisa d'extraordinario. Do que se espesinha vem sempre a nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se não extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?

-- Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... Não fales! oh não fales! não me lembres!...

-- Se tu amaste e soffreste nada é perdido. As tuas mãos estão geladas, mas as minhas ardem.

-- Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...

-- Soffre. Nada é perdido. Olha: vae-se creando com as nossas afflicções e os nossos gritos, uma outra terra!...

-- Aonde?

-- Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando á ultima dor, aos ultimos gritos, se esbrazear...

-- Conta! conta-me!

-- Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?

-- Um sonho?!

-- Um sonho é como se tivessemos na alma um mundo maior que este. Todo em fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto mais puida é a materia, mais elle arde!... Isto não se perde... Constroe-se das nossas lagrimas... É um palacio. As pedras de que é feito são os gritos... Sabes?

-- Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor... Consummiu-me.

-- Assim...

-- Um sonho!...

-- Tudo se illumina dentro em nós. E a cada humilhação elle se torna maior. Depois que soffri, é que comecei a vêr o que nunca tinha presentido. Tudo. Sabes as arvores, as nuvens, as estrellas? Vejo-as agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais soffro, mais se ateia o meu sonho.

Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz d'elle corria: ella escutava-o suffocada, unida contra a terra.

XVIII

HISTORIA DO GEBO

Para nada me importa a historia banal que esse homem gasto conta, abalado pela dor, a suar de afflicção... Morta a mulher, o lar ficou gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que transe os corações. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso tornar á mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo chão, atraz de esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já ninguem o esperava n'uma ancia como outrora:

-- E então? então? Arranjaste?....

Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia afflicções, não tinha para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondia as lagrimas para não o affligir.

-- Não se consumma! não se consumma!

-- Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?

-- Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.

-- Acho que não! acho que não!...

Depois da morte da mãe, ella o cuidava como quem cuida um filho. E o Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer, n'uma voz molhada de lagrimas:

-- A minha filha! a minha pobre filha!...

Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, elle era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os cabellos em pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez. Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir desgraças, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais pedinchão e mais gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha -- o Gebo, e perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:

-- Hein, dize lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?

E elle logo com um riso no olhar:

-- Tenho, sim, uma filha, a minha filha...

-- E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?

Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças para protestar, respondia com um sorriso e lagrimas á mistura:

-- Boas pernas... boas pernas...

Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia. Lá ia levado, enlameado e de rastros, a chorar. Illusões? já as não tinha, se illusões não servem senão para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar, com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os ultimos farrapos, agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa, prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos, todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres a scismar.

Mas agora nem isso... Enregelados não apellavam para a illusão. Elle chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar, dormir por uma vez sem mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro, apegava-se como um desesperado á vida. Ainda por cima o Gebo era cobarde: tinha um grande medo á morte.

Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lagrimas que choravam. Sob este solo que calcamos atraz, das nossas ambições, anda um humilde rio de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e corre sem ruido...

Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis crêr que estava mais gordo e mais picaro?

E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de sepulchro, espapaçado, os cabellos todos brancos e a physionomia cansada e amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:

-- Tenho pena de ter sido honrado...

Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão cravado no peito não lhe deixava um minuto de descanço: a sorte da filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.

-- Tenho pena de ter sido honrado.

Para que serve ser bom? Os máos que conhecera, estavam ricos e escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo salvára acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.

O Gebo não entendia a vida.

-- Ó Gebo! ó Gebo! -- gritavam-lhe.

E elle meio tonto:

-- Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...

Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco. Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a historia dos seus: o lar apagado, a afflicção da mãe, o choro do pae ao voltar para casa sem pão. A velha dizia ás vezes más palavras ao Gebo, quando lhe perguntava anciosa:

-- Arranjaste?

E elle a bufar, exclamava succumbido:

-- Valha-me Deus, mulher!

N'esses dias aziagos ella dizia improperios á vida e ao Gebo, que nem sequer tinha forças para as sustentar a ambas.

-- Olha os outros! olha os outros!

E elle atrapalhado:

-- Mas que hei-de eu fazer, mulher?

-- Vae roubal-o! vae roubal-o!...

Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome, todo o dia na negra faina:

-- E agora como ha-de ser?

A mãe tinha escondidos alguns vintens tirados á bocca e em torno do pão, esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miseria. Ella dizia que não havia honra nem Deus -- tudo no mundo era questão de dinheiro -- oiro! Mas quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes fazia falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a má sorte.

De fórma que Sofia nada sabia da vida, e assim fôra crescendo sem queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do velho, pela saude d'aquelle sêr offegante e grotesco, que passava horas e horas a chorar.

-- ...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...

-- Filha que ha-de ser de ti!

Engordára, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Extendia a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-n'o das lojas. A idêa da filha abandonada e com fome, allucinava-o:

-- Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...

Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se pareciam, como a desgraça se assemelha á desgraça. Até que cahiu por terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o emfim aniquilado: engordára-o, exhaurira-o e pregára-o para sempre a chorar n'um colxão de trapos.

Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tregoas, d'olhos postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro d'afflicção -- alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como uma bola de sebo -- e de cabellos brancos estacados.

Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo na terra!...

XIX

O GABIRU TRESLÊ

Noite de luar. A Arvore mergulha os braços n'um oceano de luar translucido, biliões de atomos luminosos errando. É um collosso de verdura e de bondade, uma construcção cheia de frescura e rumores. Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o luar é tanto que faz afflicção. Sente-se a satisfação gigantea da Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte, simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite callada, branca e cheia de tanto luar que faz afflicção. Por entre os raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida. Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra é tanto o luar que só se vê uma brancura.

O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a scismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão sosinho -- que lhe não fugisse o seu sonho -- e nada lhe ficara entre as mãos. Só escarneo! só escarneo!...

Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a. Não é ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e cheio de luar sorri extasiado...

Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraça. Em pequena anda rôta, quasi nusinha, e o pão da vida dão-lh'o os ladrões e soldados. Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho -- e que culpa tem ella de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a egual das pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só soffre. Vêm uns, vêm outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e ri-se até da desgraça.

Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece, á medida que o Gabiru vae tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe -- fio de luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru olha extasiado.

Da terra dilacerada surgem fórmas de prodigio. Quanto mais revolvida a materia, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso. Ella ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar -- e ri. Mas nada se perde na vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma maravilhosa forma de luar.

O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar, de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos fios de luar...

-- Fui eu que te criei, és minha! -- diz elle absorto, erguendo-se. Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir, pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes, arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem soube dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me déra ser a noite, a arvore, o luar, que me enche d'afflicção! Juro-o, as arvores falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas tantas estrellas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solidão, magoam como ais d'alguem a quem aconteceu desgraça...

Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas desfeita em luar. Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto! Olha!...

Sob a Arvore -- realidade ou illusão? -- uma figura se constroe de luar, na sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar, amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir -- mas viva! viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabirú corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de gotas de luar tombando sobre folhas.

Elle sorri e diz:

-- Eis como se cria uma alma!

Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Arvore.

-- Uma é terra, outra é luar, -- murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancholica e pallida como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...

O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o muito tempo.

-- Minha alma!

Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida, toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a Sombra opaca se tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia, n'um ai baixinho e triste. Era a creação! A alma da Sombra acordava. Eil-a! eil-a!...

-- Minha vida!

Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. Só os olhos se perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado -- por a outra rir.

-- Não fujas!

Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda -- pelo chão corria um fio de agua ou um fio de choro...

-- Meu amor! meu amor!

XX

A MOUCA

Noite de chuva, d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma angustia. Na rua Sofia passa com o chale de rastro. Ha um clarão de tochas á porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do gato pingado. Trouxe-a para casa uma noite, a essa creança que encontrou cahida na rua. Um rapaz de dez annos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe quer o gato pingado fazer, não me dirão?...

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão d'um garoto, que não lhe é nada. Elle que não tem onde cahir morto, chora o pão que tiraria á propria bocca para o dar a outro.

Morreu-lhe hontem. É decerto um gato pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de primavera negra, em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos á escuridão.

-- Deitam flôr á noite... -- diz o Sabio.

A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas tem debaixo da chuva sinistros clarões d'incendio. Vae uma balburdia na rua e o redemoinho da noite traga o bairro acastellado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e a Rata, a tossir, vae o Astronomo, e na frente d'um caixão de passarito, comboiando a turba, lá marcha o gato pingado, de brandão em punho, chapeo alto e casaca a esvoaçar... A que irão elles deitar fogo na noite tragica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tisico... Na volta vêm decerto a cahir de bebados.

Todos os dias desapparece alguma das mulheres levada para o Hospital. Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta? O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe á mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que elle mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lagrimas e só diz:

-- Filha!

A existencia é como um circo. Não ha piedade.

Dizem-me: a que recanto espantoso vae a natureza buscar esta ignea bondade? A que esconderijo, a que veio occulto? De que força é que se constroe, de que chimica é que se forma a bondade profunda, inabalavel, inextinguivel, que sustenta e ampára os pobres?...

As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora menina, depois que a vem sua egual. Repartem com ella o pão que ganham, e ao vel-a tombada, chorando, ficam afflictas, pois não sabem consolal-a.

-- Mais lhe valia deitar-se a afogar, -- diz uma.

-- Isto aqui é uma vida de cão.

-- Olhae que ter fome!... Sempre a fome é negra, -- conclue outra.

Só a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se podesse, pizal-a-hia aos pés. Ella, de quem todos se riram com escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer. Não havia ser mais degradado, não porque fosse má, mas porque era como todas as creaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.

A principio todas faziam soffrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de a verem chorar lagrimas d'afflicção, para a igualarem.

-- Cá temos a menina!

-- Quem no diria? Não falava a ninguem a mosquinha morta! É para aprender!

-- Deixae-a!

-- Deixae-a o que? Ella é como as outras.

-- Deixae a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não tem coração.

-- Tambem a gente soffre.

Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco, deante d'aquella dôr silenciosa e profunda, callaram-se e pozeram-se a amal-a. Tratavam-n'a por menina. Uma queria penteal-a, outra ajudal-a. Só a Mouca lhe tinha o mesmo odio.

-- Olha lá, ó parida!

-- É commigo que fala?

-- Faz-te tola! Acaba lá com esses ares de senhora. Já estou farta. Tu aqui és tanto como eu, sabes?

-- Sei -- diz Sofia.

-- Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

-- Ah, tu não falas? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo? Não quero que olhes p'ra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

-- E agora? agora? Quizeste, ahi tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada como eu. Aqui não ha meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que as outras?

-- Sou mais desgraçada.

E poz-se a soluçar.

Mas de subito a Mouca clamou:

-- Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver por inveja. Fui sempre assim. Não me fique com raiva. Eu dizia cá commigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a tive? Os outros são infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da terra. Crearam me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má p'ra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se ria p'ra mim, para me mostrar que não está zangada commigo. É bôa! eu dizia cá por dentro: Hei-de pôl-a tão raza como eu. Que é ella mais do que eu? Sabe porque lhe tinha esta osga? Por vêr que a menina era infeliz e bôa p'ra todos. Eu sou assim, sou como um cão. Peço-lhe uma coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.

XXI

AHI TÉM OS SENHORES A NATUREZA!

N'essa madrugada o Pitta arrastou o Gabiru por um esgoto que do predio ia desaguar ao outro lado do Hospital e de que só elle sabia a existencia. As paredes arrombára-as d'onde a onde a raiz torcida da Arvore.

-- Anda! anda! Estas raizes são mais duras que a pedra. Nada lhes resiste, nem o granito. A Arvore ha-de acabar por nos tragar a todos.

Tinha chovido na vespera e era ainda noite quando sahiram do esgoto. Abala-os logo uma lufada de ar vivo, d'este ar que é como a agua da rocha, que appetece sempre beber e que traz comsigo existencias d'arvores, cheiinho de emoção. Param. Uma brancura, nebulosa na cova onde se criam mundos, ainda erra esparsa. No céu brilham estrellas e sente-se sobre as terras lavradias o nevoeiro espesso, que das arvores tomba em gotas grossas como chuva de verão. Os troncos além são espectros e outros, mais longe, de todo desapparecem. Ao norte luz uma estrella enorme. Sobre o monte abre-se um rasgão de claridade... Eis o sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de nevoa e a verdura da herva, na manhãsinha, é immaterial, como se fosse a respiração da terra. As aves, nas moutas, começam o seu dia cantando.

-- Que sentes? -- pergunta o Pitta ao Gabiru.

-- Espera! espera! -- diz o outro entontecido.

-- Ouço gritos e só vejo uma brancura e gestos... Mas o que eu ouço! que sem numero de vozes, de palavras precipitadas!

-- Vês arvores?

-- Só vejo um clarão. É como um relampago, offusca-me! Mas o que eu ouço! quantos gritos, que amalgama de gritos! Sei agora que existem arvores porque ouço o seu ruido e a sua voz...

-- Procedamos com methodo. Eis ahi a terra, ahi a tens a teus pés. Ahi tens um charco.

Tudo já estava cheio de sol.

-- Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.

-- Sim. Revolve isso negro, inerte e no emtanto vivo. Afunda as mãos. Ahi nas tuas mãos, n'esse pedaço de lama, tens tudo, particulas d'arvores e de sonho, realidade e emoção...

-- Isto é então...

-- Um turbilhão, -- affiança gravemente o Pitta.

-- Isto é vida?

-- É vida. Esse pedaço de terra é humus. Incha com a primavera, fala. Está morna e escuta, põe-n'a ao ouvido... Ouves?

-- Ruido, vozes, gritos d'embryões, um borborinho...

-- Ora repara. É sempre a mesma coisa. Maquinações philosophicas... Isto é um mundo e isto -- e aponta um charco -- é um mundo. N'esse charco adeante, ahi, vês?...

-- É oiro.

-- Não, é agua onde o sol se espelha, apenas agua...

O Gabiru curvado mergulha as mãos afiladas e negras na poça. Tira-as depois para fóra fascinado. As gottas d'aquella agua turva cahem qual oiro liquido, trespassadas pelo sol, n'um chuveiro de faiscas.

-- Eis estrellas! exclama commovido.

-- Perdão, é apenas como te disse, um charco, um desprezivel charco. Habitua-te primeiro a vêr.

-- Quero vêr mais!

-- Habitua-te primeiro a vêr...

O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os sêres e as coisas. No dia humido ouve-se o resurgir da vida: a lama mexe-se, os troncos engrossam, a agua nasce inchada, n'essa manhã de primavera, em que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na vespera e até nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a chuva encharcára, irrompe uma vida exuberante, apressada, de sêres que em minutos de existencia têm uma prodigiosa tarefa a cumprir: amar, crear, morrer...

-- Eis uma arvore -- aponta o Pitta.

-- Como ella gesticula para nós!

-- Pois ahi tens uma arvore.

-- Que coisa enorme e bella que é uma arvore! É differente da outra... E é uma arvore? Uma arvore dá agua, ouço a agua a cahir.

-- E o ruido das suas folhas.

-- Uma arvore é viva. Fala? É o ser mais bello que eu conheço. É verde, mexe-se...

-- E alli, longe, um monte.

-- Aquillo pequeno? Um torrão como este que os meus pés desfazem. Só é violeta. Maior é uma arvore! maior!... E esta poeira luminosa que nos envolve, que é? Alma?

-- Maquinações philosophicas... Caminha agora, vê... Eu vou-me deitar á sombra... Podes vêr...

O Pitta tirou as botas e estendeu-se ao pé d'um sobro. Da algibeira saccou o caderno de notas e poz-se a escrever: Deve á D. Antonia, tres mezes em atrazo -- 30:500 rs.; a Haver das explicações da natureza aos domicilios -- 25$000... Differença...

O Gabiru vae andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as mãos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes orvalhadas, arvores brancas todas flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica absorvido defronte d'um velho muro, encostado ao qual uma macieira treme, carregadinba de flor. Ha galhos que lhe parecem emoção. Os pés calcam hervas espesinhadas, que tambem deitam cá fóra o seu sonho; esquece-se ao pé das fontes vendo-as jorrar e põe-se a respirar fundo, querendo imbeber-se d'aquelle ar carregado de vida.

De repente cahe um d'estes chuveiros de primavera, precipitados e rapidos. A chuva que tomba é morna. As plantas bebem-n'a, as flores abrem-se tontas e escondem gotas nas corollas; vêm-se crescer as pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gommos tingidos de resina estalam, abrem, com um ruido suffocado -- ah!... Tudo fica baço a principio, a terra molhada é d'um negro gordo; um fremito corre nas folhas tenras... Depois, como um veo que se rompe, o sol começa de novo a correr. As fontes deitam oiro, as plantas têm fios d'oiro e no chão ha toalhas e caminhos d'oiro e sombras.

-- Senhor Pitta, eu quero ser isto...

-- Isto quê? resmunga o outro concentrado.

-- Quero ser isto!...

Mas o Pitta, enfronhado nos calculos resmoneia:

-- Maquinações philosophicas. Deixa-me... Eis a differença -- 22$000 réis... Eis!...

O Gabiru caminha. Depois cahe entre a herva tenra e nascida e deita-se a vêr os rabiscos do sol e um galho tão em flor, que parece uma teia de luar esquecido. Primeiro o tronco incha: ha como ponto negro que estoura, para ser botão e depois flor... Medita. Está um dia morno e humido. Sahiram das tocas os bichos internados todo o inverno. Vespas passeiam a sua roupa d'oiro no marmore das flores e toda a terra remexe. Acredital-a hieis viva.

Em que se põe a pensar? O seu ouvido de enclausurado, affeito ao silencio, ouve até ao fundo da terra o rumor dos bichos, tanto tempo empedernidos, que esfuracam para o sol; das sementes que rebentam e sobem para a luz, o glu glu das raizes gordas e felizes ao mergulharem no humus.

É um barulho de maré longinqua que cresce, galga, augmenta, trasborda... Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as hervas escondidas, os tojos bravios, para quem ninguem repara, crescem. Ha-os nas pedras; ha-os no ventre resequido dos calháos.

Anda, anda, e dá com aguas grossas, felizes, apressadas; com quintalorios onde a verdura cresce aos borbotões; pinheiros, depois silvas, bravios -- e até nos sitios mais estereis encontra a mesma vida e o mesmo amor.

Que força é esta que faz mexer a terra e a abala?

É uma torrente, um rio subterraneo branco e verde, que vem á suppuração? Um riacho de tintas, brotando á superficie do solo em labaredas verdes, todas roxas, inteiramente brancas? Ha verdura tão tenue que dil-a-hieis uma nevoa verde; folhinhas que parecem feitas d'um halito que se pegou aos troncos.

A sombra das arvores enche-o de refrigerio, envolve-o na atmosphera de sympathia e frescura que ellas exhalam.

Por fim o Pitta vae encontral-o tolhido, d'olhos estasiados entre flores esmagadas, Nas mãos flores, aos seus pés flores esmigalhadas.

XXII

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Oh descubro agora a torrente esplendida que é a vida! É a emoção. Ella é o veio limpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens, prende-os -- e o egoismo afasta-os.

Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande atlantico de belleza. As creaturas humildes e simples tem uma existencia como um fio corrente -- agua ou lagrimas, mas sempre claro. A colera, a ambição, os interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a agua.

Amar os outros, soffrer pelos outros, viver para os outros, é tornar a existencia simples, monotona e grande; é fazel-a parecida com as mantas grossas, d'uma unica côr neutra, que agasalham os pobres.

O homem que tem emoção e que ama é sempre feliz: as coisas conhecem-n'o, as arvores são suas amigas. Sente-se enternecido deante do mais resequido calháo.

O que odeia, o ambicioso e o máu, passaram pela natureza como o homem na guerra: não viram nem ouviram. As coisas emmudecem para elles. Nada lhe dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste deante d'um sitio recolhido e simples, deante das desgraças alheias, tu, pobre, que tombaste na cóva desprezado, rôto, e a quem a terra recebe como a um amigo, tu que adormeceste no derradeiro somno quasi consoladoramente, como morre tudo o que é simples, tu viveste... Communicaste pela piedade e pela emoção, com a natureza inteira e o teu amor repartiste o pelos mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu soubeste e presentiste tudo.

O que é grande é sempre simples.

Desperta em ti a emoção para que possas dizer: -- Vivi!

Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra -- seu sustento e sua cóva. O pão de cada dia deve grangeal-o com o suor do seu rosto.

É singular a inconsciencia com que o homem trata as coisas mais profundas da vida -- e a gravidade com que discute as que são apenas apparencias vans.

A desgraça é sempre boa -- porque approxima o homem dos desgraçados.

Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É como a folha que se deixa vogar na mansidão de um rio até que o oceano a traga.

Nada na existencia nos prende como os grandes espectaculos da natureza: o monte, a arvore, o fio de lagrimas que as fragas choram, o homem de coração e vida simples, pacifica e grande.

Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão que se come não é tirado a nenhuma bocca, nem o lume que nos aquece roubado a alguma velhice friorenta.

Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão saboroso e negro e o tronco para o nosso lume!...

Quando se ama, a emoção sahe de nós como d'uma fonte e a gente prende-se aos outros. Não se sente sósinha: faz parte da Vida, d'uma torrente d'amor mysteriosa e esplendida. O amor torna-nos irmãos.

O homem não faz senão complicar a vida, que em si é afinal bem simples.

As coisas despresadas são as melhores da vida: a paz, as horas esquecidas, a agua desnevada que se bebe, os minutos de silencio em que se sente Deus comnosco.

De que serve accumular odios, ambições, riquezas? Não é isto demais para uma vida terrena?

Não saber nada senão amar -- repartir emoção com os outros!

De rastros! de rastros! Odio, ambição, gritos, tudo isso é nada! Toda a existencia perdida a sonhar, a viver sósinho, absorto em coisas nullas, quando a vida é tão grande e tão simples e se reduz -- a amar! Pelo amor conhece-se tudo, até o que os sabios ignoram. Olha para um mysterio com amor, e elle desvenda-se logo; olha para um calháo com amor, que até n'elle encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmão, até ao mais degradado, com amor, que n'elle depararás com Deus. Deus vive ao pé de ti, comtigo, tocal-o a toda a hora. Que precisas para o sentir? Amor.

Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se approximam, com emoção e o teu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso mysterio, e serás feliz.

Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te á abobada do céo, ao homem, á montanha, á arvore, ao mar -- e ouvirás Deus em ti, sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a agua das rochas.

Deus está muito perto de ti -- e é por isso mesmo que o não vês. A palmos da seccura passa muitas vezes um veio d'agua escondido. Basta cavar na crosta da terra, para que o chão gretado e pedregoso se transforme. Que torrente de emoção não vae atravessando os mundos, os homens, as folhas seccas e os globos d'oiro do céo!

O homem enredou se de tal forma na ambição, no odio, na guerra, que perdeu o sentido da vida -- tão simples e tão larga -- e que deixou de vêr Deus, sempre presente ao seu lado.

Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e grandes -- ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o seu coração a esse fluido mysterioso.

A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que nasceu o orgulho, e que nasceram a ambição, os erros, o crime -- e até a piedade. Se todos vivessemos da verdadeira existencia -- o homem seria feliz. Como se pode redimir tudo isto? Prégando o Amor. Só o Amor nos pode ainda salvar.

Agora vejo! agora vejo! Que montão d'infamias! que montão de crimes! O homem trabalha desesperado, atraz do oiro, da ambição, da vaidade, do sonho vão, para quê? Para ser desgraçado. Um trabalho ferreo e herculeo -- para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com inutilidades, carregado de dores e de opprobrios. Não hesitou em despedaçar, em calcar, em mentir -- em busca do que elle julgava a felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para olhar a montanha, o mar, o ceo -- o espectaculo de Deus não o viu -- porque corria atraz da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo, tendo piedade de seus irmãos, dando a mão aos desgraçados, porque vivia n'uma afflicção, atraz do quê? Da felicidade. Não se sentiu a sós comsigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida perdeu olhando-se cara a cara, elle e a sua alma, fechado com o seu coração. Porquê? Porque corria atraz da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a respiração dos montes; riu-se do amor, da emoção -- futilidades -- porque feroz, incansavel, negro como um mineiro, elle buscava, sem perder um minuto -- a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro e pão, tirado a outras boccas, tendo feito gritar, blasphemar, contente o seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente desgraçado. Está a dois passos da cóva. Interroga-se e não comprehende. Então isto é que era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraçado não reparou que a felicidade na vida estava exactamente no que elle tinha desdenhado!

Ama, ama a teus irmãos e vel-os-has transformados e cheios de belleza: mesmo nos mais seccos irás encontrar coisas inesperadas; ama a natureza, os montes, as pedras -- e verás que espectaculo sublime; ama que sentirás a mão de Deus pousar se sobre a tua cabeça.

Torna á vida simples e serás feliz. A tua vida não custará gritos; o teu pão não será furtado a boccas famintas. Por cada homem que amontoa oiro, ha cem creaturas morrendo no desespero e na afflicção.

XXIII

A OUTRA PRIMAVERA

Os dias passaram-se e a Arvore era um collosso.

N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chale-manta ao vento.

-- Pitta você tem um ar estranho.

E o Pitta, transido, murmurou:

-- Você deve tel-os visto. Nascem, irrompem da treva...

O outro, cheio de serenidade, affiançou:

-- Foi a primavera.

-- A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Elles só apparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com creaturas que nunca vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem, dir-se-hia que todos os sonhos tomaram corpo.

-- Tomaram. Tenho pensado n'isso. Pois foi a primavera. Você tem visto um charco, lama e agua revolvida? Vem a primavera e aquillo transforma-se. O mesmo sôpro que faz bater mais alto o coração dos montes, cria n'aquelle palmo negro a vida -- murmurios, gritos, um arrancar de mysterio. A primavera faz isto; transforma o humus inerte n'uma vida furiosa. Eu já vi...

-- Então...

-- Então, Pitta, você medite, é isto... Esta lama que se cria nos saguões, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites a crear... Veio d'alli -- e apontou para os lados do Hospital -- um effluvio, o mesmo que faz nascer as arvores, e elles estremeceram abalados.

-- A noite tem realmente qualquer coisa que afflige... Oppressão, mysterio...

-- Emoção que foi até ás tocas onde elles criam. Pozeram-se a sonhar e crearam. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um riachão, gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro á terra...

-- Crearam?

-- Crearam. Isto que nós vemos não são elles, são apparições. É o que elles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo. Só nós é que não podemos sonhar.

-- Nós não, nunca mais... Os sonhos dos desgraçados tomaram emfim corpo!

-- Tanto sonharam! tanto sonharam!...

-- Mas foi a Noite então?....

-- A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Elles só deitam flôr á noite e só podem sonhar á noite.

-- E você como soube?

-- Meditei.

-- São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estatuas vivas, outros são disformes...

-- Eu tenho visto. É uma amalgama singular. Creaturas de fogo, outras de crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que tudo acarrete...

-- O que elles sonhariam para chegar a materializar!

-- De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos sitios mais negros é que elles irrompem em braza. Hontem vi um que parecia uma flôr -- -branco, todo branco ou de luar gelado...

-- E falam!

-- Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?

Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido até aos alicerces, queria elle proprio crear. O rio subterraneo estrupia coleras, engrossára, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava oiro, como as poças que reflectem um poente. O Gabiru prégava aos desgraçados. O Pitta mostrando-lhe ao pé os montes, as arvores, a natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e falar-lhes baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a scismar d'olhos febris.

As suas palavras ardiam. E subterraneo, incansavel, ferreo, minava. Ia á procura de odios para as atiçar. Prégava-lhes, apontando o Hospital:

-- É alli! alli!...

Falava dos montes e das aguas, mas confundia tudo: aquella manhã de março esbraseara-o.

-- É uma coisa esplendida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um incendio verde que pacifica e estanca toda a sêde. Aguas a rolar e arvores esgalhadas falando... Sabeis o que são arvores? Ha alli montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...

Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite, esguio como um enterro.

-- Ha montes todos d'oiro erguidos para o céo, ha oiro nas arvores, oiro nos montes e no tojo... Todas d'oiro são as aguas a rolar. Ha seda viva e arvores... Ha arvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!

E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça, escutavam-n'o e punham-se a falar sósinhos. As palavras do Gabiru empoeiravam-n'os d'inquietação e tristeza, e a noite era como um brazido que alguem remexe. Ouvira-se primeiro o murmurio, a zoada do sonho affastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.

-- Ha oiro! para lá ha oiro!...

E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Predio parecia abalado. Todo aquelle terriço de creaturas o esbrazeara.

-- Tanto sonharam! tanto sonharam!...

Pobres que fariam senão deitar as mãos tabidas a um outro universo que elles presentiam igneo?

Á força de sonhar materialisaram o sonho.

Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não conheciam da vida senão a dôr. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoção, como quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ancia, dizia a historia pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotãos, nas mansardas e nos saguões, encontrava-se aquella levada scismatica, tolhida de sonhar. De uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e lhes faziam precipitar as illusões represas... É verdade afinal que ha arvores e fontes todas d'oiro? Porque é que eu nasci para soffrer? Porque é que existem vidas, como a de certas sementes, que não chegam a ter força para germinar?

Tocados d'essa primavera negra, de que falára o sabio, juntavam-se para se queixar e cada um, á força de sonhar, creára uma figura, desdobrava-se. Dos seres tragicos, rotos, calcados, nascera uma apparição d'uma belleza estranha; d'outros nevoa, phantasmas. Todos traziam o seu companheiro -- e havia homens acompanhado por arvores, pelo odio, pelo riso, por monstros...

-- Eil-os que deitam flôr! eil-os que deitam flôr!...

E na noite elles botavam realmente flôr, e de tanto falarem nas arvores e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.

Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exhalar illusões, sonho de sébes, de calháos, de tudo que no planeta se cria de ignorado e humilimo.

XXIV

A MORTE

Oh eu já não sei bem, pobre de mim, o que é realidade e o que é sonho. Por vezes me parece que o proprio Hospital se põe a falar pela sua bocca de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em algido luar, eil-o que enternecido conta sonhos rôtos e tristes, o sonho dos pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de musgo, esquecidos no globo, mas que exhalam uma frescura enorme...

Encontraram hontem o Astronomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe no craneo um ruido extranho. Constellações de fogo, mundos e coisas terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do casaco d'alpaca, olhava o céo n'um extasi. De que tombára? De fome ou d'um sonho? Consummira-se como um tronco n'um lar.

Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de casa d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira d'espanto. Morrera surprehendendo algum mundo desconhecido ou descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vêl-o, cahira fulminado? Em torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas prodigiosas. Havia um desenho allegorico, um viva a republica! outro, morra a D. Antonia! contas e um soneto bocagiano pela mão do Pitta -- e entre aquella lama o Astronomo morto era como a claridade das constellações, que luzem até no fundo das latrinas.

Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas tragicas á tona. Só a Arvore cresce e á medida que ella cria forças a Mouca se consomme. A tosse desconjuncta-a. Creou-a a desgraça humana, construiu-a do lodo das ruas e d'abjecção. Mas a dôr vem e purifica: é como o fogo que torna um galho apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra, alta, luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe os ladrões e só ella não ri como outr'ora. Se a fazem soffrer, a Mouca chora. Um dia ao vêr que batiam em Sofia diz-lhe:

-- E se nós nos matassemos?

-- Calla-te! calla-te!

-- Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já não me importo de viver. Perdi o amor á vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Porque será que a gente muda? Diga-me: é p'ra amor do velho que se não quer matar?

-- É, está callada.

-- Eu cá sou assim, que quer? Ás vezes, quando não tenho com quem falar, ponho-me a falar sosinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vem agora á idéa. Esta vida sempre é mais negra, não é?

-- Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, não me deixe ir p'ra o Hospital.

-- Não fales...

-- Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer, não é? Então quanto mais depressa melhor...

Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca poz-se a olhal-a como um cão ao dono. Por fim disse-lhe:

-- Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale acabar. E a menina? Que ando eu a fazer n'este mundo? Se a menina tem medo da agua, eu deito-me primeiro ao rio.

-- Não, deixa! não te afflijas!...

-- Eu, sim! Bem m'importo!...

De noite muitas vezes tinha afflicções, suffocada. Agarrada a Sofia:

-- Ó valha-me!...

No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo estava tranzido.

-- Na primavera...

-- Sim, na primavera.

-- Vês a Arvore, vêl-a? Assim que tiver flor, é mais quentinho...

Mas veiu março e depois abril e que transformação! Quasi que nada restava da Mouca, escarneo de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe sumira...

Dia soturno, de nevoa, cinzento e humido. Começo da noite. Fóra, na rua, lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candieiro fumarento. Vae morrer a Mouca. Limpam lhe as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé vem os ladrões e os soldados para ao redor da enxerga vêl-a acabar. Moldado pelo lençol um corpo resequido e no silencio d'espera ouve-se só a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a morte esgana -- mais perto! mais perto!...

O Velho, com a bocca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos brilham; á cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e humidas. O lenço está ensopado de suor d'afflicção.

-- Ajudae-a a morrer -- diz uma das mulheres.

-- Está a passar?

-- Shiu! baixinho...

Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da enxerga -- o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas feições crueis, ha espanto e terror.

-- Inda fala?

-- Shiu!...

Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse apertando -- mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na cara branca e immaterialisada:

-- Menina! menina valha-me!...

-- Estou ao pé de ti.

-- Tenho frio, muito frio...

Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda -- e pé ante pé tambem o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e d'um lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.

-- Aqui está uma manta -- diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de manta cossada.

-- Shiu! já não precisa.

-- É melhor deital-a com a enxerga no chão, para acabar de penar -- aconselha a patroa.

A Mouca respira afflicta.

-- Tenho frio... nas mãos, na cara...

Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham maltratado, do todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina; a vida extingue-se-lhe como a ultima gotta d'um fio d'agua que acaba de correr. Haviam ficado em volta immoveis.

Este acto do espirito se libertar é de tal forma grande, o inicio do mysterio, que até o Pitta olhava estarrecido. Fóra disse para os ladrões:

-- A morte, rapazes, ensina. Não ha licção mais formidavel. É doloroso e no emtanto pacifica. Vêr morrer, enche de grandes idéas, filhos!...

XXV

A ARVORE

O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida -- d'essa corrente a que estamos sujeitos toda a vida -- impellia-o para o mal. A sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem sós e a quem o tempo sobra para reflectir.

-- Quem és tu? disse-lhe o Gabiru.

-- Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo ninguem o saberá. Não tenho familia.

-- Quem te creou?

-- Os ladrões.

-- Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.

E emquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando d'estacão, para de novo mergulhar n'um somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.

Ás vezes o ladrão tornava e o philosopho repartia com elle o seu pão. Depois dizia-lhe:

-- Dorme.

Mas n'essa noite o Morto não quiz dormir. Sentados á beira um do outro falam durante largo tempo.

-- Não sei porquê este tempo afflije -- começa o Morto -- Não devia haver este tempo.

-- Qual?

-- Este, de primavera. Até na cadeia, quando n'uma noite assim o luar consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobresaltados. Tenho visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma creança por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas encostou a bocca ás grades para respirar com soffreguidão e desatou a cantar. Este tempo tira a força.

-- Escuta. Não ouves nada?

-- Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os que matam inda são os que tem melhor coração.

-- Tu para que roubas?

-- Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o que a gente faz está escripto no livro do destino. Eu bem sei que inda hei-de fazer peor quando soar a hora...

-- Que hora?

-- A minha hora. Todos n'este mundo têem uma hora em que cumprem aquillo para que foram creados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que é para roubar? Matam uma creança que nunca lhes fez mal.

-- De que serve fazer mal?

-- Em primeiro logar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal, é sempre bom fazel-o. Tenho horas em que tudo em mim -- tudo! -- me préga que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Ás vezes sonho que mato. É signal que a minha hora ainda não soou.

-- E Deus?

-- Deus foi que me creou, Deus não se importa. Que tenho eu que fazer n'este mundo? Só mal. É porque Deus me creou para o mal.

-- Resiste.

-- Quando a gente é creada para isto, não ha nada que nos impeça.

-- Antes viver com um sonho, ignorando tudo.

-- Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não vives. Morrer sem ter vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu de ser perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de seres tu? Ha instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é preciso cumprir se um fado, com todo o nosso sêr, é preciso a gente sentir-se só contra todos e no entanto proseguir o seu destino... Andar inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...

-- Mas o mal...

-- Que sabes tu do mal?

-- Nada.

-- O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!... Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar; encher depois o peito, com o coração a estalar, escondido n'um canto negro ou estender-se a gente no chão e sentir na bocca o travor da terra!... Não respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vel-a finar-se!...

-- E eu que tinha pena de ti!...

O Gabiru reflecte. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e, no silencio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as arvores, com fórmas de sonho.

-- Pobre de ti! -- diz por fim o philosopho -- Tu és a terra, tu és a terra a falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como a forja apagada e eu não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?

-- Não, não quero ver. Isto tira a força á gente.

-- Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um sonho que o outro não podia vêr...

Foi esta noite! foi esta noite! Ha dias em que eu sinto como uma torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras estremecem impellidas. Ha como uma ligação entre a Arvore e o que para lá existe. Os seus galhos engrossaram quasi a rebentar e hontem á tarde eu vi que a Arvore já não era a mesma. Foi quando, como agora acontece sempre desde março, o sol lhe deixou poeira d'oiro nos galhos. Vae-se o sol embora e ainda -- vou jural-o -- lhe fica sol nos ramos. Hontem á tarde parecia transformada, dirieis haver n'ella não sei o quê d'extraordinario. Tinha o ar d'um heroe ou d'uma mãe. Puz-me a vel-a tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e emfim descobri perdida, quasi sumida, uma flôr tão miuda, tão tenue... Qualquer sôpro do vento leval-a-hia para sempre.

A noites estremecia despedaçada. Uma nevoa viva, torrente luminosa, arrastando comsigo no alvorecer, o primeiro halito dos montes e das aguas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pitta sentiu que alguma coisa d'extraordinario se passava n'essa madrugada d'abril: um jorro de vida brotára, uma apparição, um sonho realisara-se tornado em materia. A propria luz dir-se-hia enternecida, estremecendo ao tocar na Arvore. Envolvia um fluido, um rastro d'emoção. Erguida, enorme, transformára em flor a dor que as suas raizes tinham bebido. Com um grito o Pitta viu o Gabiru pendurado n'um ramo.

Namorára sempre, depois do escarneo da Mouca aquella Arvore, scismando n'um encontro ethereo para depois da cova. A tisica, nos ultimos dias, quando a morte a tocára, não tirava dos troncos despidos o olhar absorto.

-- Aquella Arvore, -- dizia -- aquella Arvore...

Não sei se repararam... As creaturas mesmo antes da agonia pertencem mais a um outro mundo do que á terra. A materia está já toda imbebida de mysterio, ha mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo emmudecem e põe-se a falar dentro em nós a poeira d'astros de que é feita a alma.

-- A Arvore! a Arvore!... -- dizia ella para Sofia -- Donde nasce aquillo -- olhe -- que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz... Lembra-se do anno passado que p'ra alli veio um passarito morar? E da sua voz? Parecia agua a cahir...

Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais. Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sitios que ella amára. As noites tinham já esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no escuro, de palores esquecidos...

Altas horas á janella, todo o céo pontilhado d'estrellas, ouviu soluços na quietude da noite. Cahia um luar enorme e a treva tacita parecia esperar escutando. Só muito ao longe, no silencio que lhe pareceu presago, dir-se-hia que uma nascente deixára correr um fio de agua -- só um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Dirieis lagrimas. Poz se a olhar inquieto. A Arvore mais esguia ao palor do luar, parecia transformada. Acenavam-lhe os ramos -- e que voz era aquella, fina e meiga, que o chamava?.... Ou seria agua nascendo ou um fio de luar a correr?

Desceu tres a tres os degráus e eil-o no quintal. Vestira o luar a Arvore e sob a magia da noite a eclosão fizera-se. Cobriam-na flores -- cheiinha -- e todas ellas eram como pequeninas boccas a chamal-o, com uma voz conhecida.

Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Arvore como um branco phantasma a fugir e a chamal-o. Baixaram-se os seus troncos para o tomar e ouvindo aquella voz amiga, desfalleceu apertado, morto, levado pelos ramos...

XXVI

NATAL DOS POBRES

Natal...

Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as arvores despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora arrasto pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Ha no emtanto um grande rio revolto que nunca cessa de correr...

Longe pelos caminhos, atravez de pinheiraes sumidos e callados, vão velhinhas tristes, de saia pelos hombros, para consoar n'esta noite com os filhos. Andam tropegas legoas e legoas. As suas mãos callosas, as caras enrugadas, onde as lagrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que ellas tem passado na vida, dias sem pão, suor d'afflicções, desamparos, máus tratos...

Os cavadores deixaram mortos os arados nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O vinho d'hoje conforta, como as lagrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume d'hoje aquece como o amor de nossas mães.

Nos soutos, sob a chuva que cahe mansa e continua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pae. Partem, chegam, vêm de muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quasi não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que têm atraz de si uma vida de martyrio e fomes, dizem:

-- É hoje o maior dia do anno...

Na lareira arde um canhoto. Cabe o nevão. A cosinha é negra, de telha vã, é negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco avistam-se as estrellas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto, bebem um vinho aquecido em arvores que as suas mãos cortaram.

Sentados ao lume não falam. As brazas vão-se extinguindo como um poente, ou como uma alma que vae deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado a estrella reluz, o nevão cabe com um ruido de flôres desfolhadas, e cada um scisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longinquo: em certa hora da vida, na mãe, n'um filho ausente, n'aquella morta que passou seus dias a sacrificar-se por nós...

-- O lume apaga-se...

-- Deitae-lhe canhotos.

O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoados, vém escutar-nos attentas.

Os pobres são como os rios. Estancam a sêde da terra, fazem inchar as raizes e crescer as arvores; acarretam; móem o pão nos moinhos. Eil-a a vida da terra. Todas as cathedraes se construíram da sua dôr; sem elles a vida pararia.

Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que creaturas miserrimas, encontram ainda na sua gelida nudez, horas para recordar e amar? Pobres repartem o seu pão; espesinhados dão-nos das suas lagrimas. Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a afflicção. Chegam-se uns para os outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sitios onde se soffre, os miseros e os doentes quedam-se muito tempo a scismar. Os pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparadas, onde nem o lume se accende; cuidam n'uma velhinha, que, a essa mesma hora, scisma, abandonada e sósinha, ao pé de brazas extinctas, no filho doente, no filho ausente... Ha cabanas nuas, lares rôtos, almas mais gelidas que o nevão.

As lagrimas que se choram e se não vêm são as peores: cahem sobre a alma.

Sofia sóbe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com o Gebo. Na sua physionomia ha um cansaço enorme.

A chorar, misturando-lhe lagrimas, o velho, mais gordo e todo branco, bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na trapeira fria. Fóra não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam. Põem-se a scismar na mãe que descança na terra encharcada. Tudo tão triste, dias sem pão, e o amor a prendel-os, a unil-os, mais forte que a desgraça. Não sentem odio, nem teem forças para gritos. Baixinho o velho Gebo e a filha choram aquella que a terra primeiro tragou.

-- Se o Senhor tambem nos levasse...

E Sofia bebendo do mesmo copo:

-- Tenha paciencia, tenha paciencia...

-- Se o senhor nos levasse juntos, na mesma hora... Cuido que não tinha tanto frio.

-- Ahi tem pão.

-- Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse comtigo, minha filha, não tinha tanto medo.

-- A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as precisões e as lagrimas...

-- Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se tambem a desgraça.

-- Aqui tem o vinho.

Natal dos pobres, noite de communhão, noite de lagrimas e saudades! Não é chuva que cahe sem ruido, são lagrimas. O Gebo abre a janela e põe-se a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras que a noite leva. Sofia o ampára.

Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovellos fincados nas taboas, olham o vinho quente e scismam... Ceia de natal! Ceia de natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moidas de pancadas, tem más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para que lhes perdoem uma vida infame.

Falam! falam!... Parece que a mesma primavera negra fez dar emoção a estas creaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre lagrimas, risos sem piedade... Uma começa:

-- Ninguem canta?

E logo outra, como se as palavras lhe sahissem de golphão:

-- Eu cá foi por fome que me desfructaram. Ninguem queria saber de mim e a minha madrasta calcava-me aos pés.

-- Eu nem sei como foi...

-- E eu então -- continua -- foi por fome. O pae estava encarangado e a minha madrasta era tão má, que, por eu me demorar n'um recado, partiu-me um braço.

-- Pois eu foi assim de repente... -- diz outra -- Ia pela rua fóra. Vinha da fabrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem poz-se a falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquillo foi... E a falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho que nem o conheço.

-- Enganam e nunca mais querem saber.

-- A mim minha mãe bem me prégava, mas a gente que ha-de fazer?

-- Hontem os soldados pozeram-me o corpo negro, -- diz uma.

E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nodoas. No hombro os ossos furam-lhe a pelle.

-- Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...

-- Tola!

-- Que tem? Tenho alli a roupa apartada.

-- A mim quando sahi do asylo enganaram-me, levaram-me. Eu não sabia nada. Depois comecei a servir. Enganaram-me e punham-me fóra... Depois não tinha mais para onde ir ...

-- Eu cá tive um filho...

Uma que estava callada soluçou no escuro. E como todas se voltassem poz-se a rir e a ageitar os cabellos.

-- Eu tive um filho e puz-me a creal-o. Depois de isso o meu amigo nunca mais quiz saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o innocente e elle punha se a rir. -- Mulheres não faltam, dizia-me. Vae-te! -- E a gente fica feia. Vae um dia e disse-me: -- Se cá tornas chamo a policia. -- Eu chorei até não ter mais lagrimas e acabou-se tudo. São todos o mesmo. N'outro dia vi-o mas elle fingiu que não me conheceu.

-- E o teu filho era bonito?

-- Era um anjinho do céo. Tanto chorei que seccou-se-me o leite de chorar. A gente sempre é mais tola!... Poz-se muito chupadinho e morreu.

-- A Maria já deitou um á roda.

-- Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por elle. Não tinha coração para o dar a crear.

-- A gente não podemos ter filhos.

-- Eu cá era uma innocente. Até me dá riso! Tinha treze annos e foi logo ao entrar para a fabrica. O mestre foi quem me desfructou. Agarrou-me, mas eu não sabia e puz-me a chorar. -- Calla-te! se dizes, vaes para a rua! -- Abandonou-me, outros vieram... A gente ha-de cumprir o seu fado.

-- Eu cá fui um miminho. Meu pae tinha de seu... Depois tudo esqueci, porque senão a gente morria. Meu pae era muito meu amigo. Era preciso não ter coração para o enganar. Nem elle podia suppôr mal de mim, nem do outro que entrava na nossa casa. Meu pae era tambem muito amigo d'elle e tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pae commigo no collo me dizia: -- Tu és o meu coraçãosinho... -- Eu sempre tive um collo! Olhae: emballava-me como ás creanças. -- Falta-te a tua mãe, mas eu sou a tua mãe, queres? -- Era uma dôr do coração enganal-o e nós enganamol-o ambos. E eu bem sabia que elle era casado, mas mentia-me...

-- Porque será que os homens mentem sempre?

-- Mentia-me sempre, e eu era innocente. Mentiu-me e mentia a meu pae. O peor é que um dia fiquei gravida. Começou o meu castigo. -- Vou-lhe dizer tudo. -- Diz -- disse elle. Matal-o. Se queres diz... -- Eu callei-me. -- E agora? -- Agora... -- Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca lhe quiz deveras. Foi uma desgraça. Já estava escripto que fosse desgraçada, acabou-se!... Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pae não reparava... E elle que me imaginava uma inocente!... Esperae... -- E agora? agora?.... perguntei-lhe. Então arranjei com que meu pae me deixasse ir com elle e a mulher para uma quinta. Se vós visseis!... A pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a peor que a um cão. -- Calla-te! -- e ella callava-se, a pobre. -- Fala! -- e ella falava. -- Ó estupor tu não te callarás! -- Ella tinha os cabellos todos brancos e vae em um dia perguntei-lhe quantos annos tinha. -- Trinta, respondeu-me, e callou-se. Fiquei passada. O homem deante d'ella dava-me beijos para a ver chorar. Dizia-lhe: -- Vou dormir com ella, ouves, velha? -- E dormia commigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos tão tristes, que faziam afflicção. Um dia que ficamos sósinhas, ella disse-me: -- A menina ha-de ser uma infeliz -- Eu chorei, e ella com a mão nos meus cabellos, a fazer-me festa: -- Coitada! coitada, que sorte a sua tão negra!... Ainda eu... -- Porque o não deixa? perguntei-lhe. -- Já me tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.

-- Elle sempre ha desgraças? Ás vezes mais vale ser mulher da vida.

-- Esperae pelo resto... Tive as dôres uma noite no verão, em agosto, e a pobre da senhora é que me tratou. Elle levou-me logo o filho. Na outra sala ouvi gritos. Vae e atirei-me pela cama fóra, sem saber o que fazia. -- Onde está o meu filho? -- Fui mesmo de rastros e puz-me á porta a escutar. Elles berravam -- Se falas esgano-te! -- dizia o malvado á mulher. -- Mata-me! tornava ella. -- Tu queres a minha desgraça? Estorcego-te! -- Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta. -- O nosso filho? o meu filho? -- Nasceu morto. -- A mulher a um canto chorava. Chorou sempre depois.

-- Tinha-o matado, o malvado?....

-- Tinha. Affogou o na latrina. Depois veio a policia. Esperae... A creada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa d'um lado e descobre do outro. Elle fugiu para o Brazil, eu fui presa, e meu pae deante d'uma ingratidão tão negra -- queria crêr? -- estalou-lhe o coração. Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina escripta.

-- E a ti?.... Não falas? -- perguntam a uma sumida no escuro.

-- A mim enganaram-me. Foi ha tanto tempo que já me não lembra. Tudo perdi.

-- E a tua familia?

-- A gente não tem familia.

Na noite, a um canto do Hospital o velho banco de taboas puidas, dá lhe tambem para scismar. A ventania parou. D'uma fresta tomba luar. A treva amontoa-se ao fundo, e, para alem, nos corredores abobadados, arde um lampeão. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão destacam-se, escoam-se sem ruido pelas muralhas humidas e espessas. Mais para o fundo ha como um abysmo, valla commum de treva empastada. Os gritos redobram; depois, por momentos, o silencio suffoca, como o d'um sepulchro.

-- Se é luar que cahe d'aquella fresta, -- cuida o banco. -- Se fosse luar!...

Pela escada vê se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, cahidos nos leitos: parece uma necropole subterranea e immensa.

-- Se fosse luar... -- Ha que tempos que não sinto o luar. Era como um ruido branco que me envolvia outrora na floresta. Neva ás vezes luar. E havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites nascem! Era differente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos ramos historias acontecidas n'outros montes. Ha epochas em que o vento traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados ás flores... Se aquella poeira fosse luar... E se o luar se pozesse a correr sobre mim, aquecendo-me como outr'ora, quando em mim subia não sei o quê de mysterioso e forte?

Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os ultimos lampiões apagam-se um a um, como se alguem lhes soprasse. É a Morte seguindo o seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais callada, maior, valla infinita, a que uma luzinha dá alma. E o banco scisma:

-- Ha que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz comsigo a vida de tudo o que existe, dos rios, das outras arvores, nem o sol a crescer em vagas d'oiro, nem a agua verde, melancholica, e tão mansa entre os choupos que parece ir vogando já morta... Sinto-me transido... Transido? Isto é como fogo, mas trespassa-me de frio. E não ha nevão, mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... D'estas enfermarias corre tambem um sonho parecido com luar... Será uma fonte?.... As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as minhas fibras mergulham n'um mar revolvido, que eu ignoro, mas que é feito de gritos.

Baixo a pedra começa tambem a lembrar-se e áquella hora perdida da noite toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes, materialisam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos bandos dissolvem-se, para outra vez se crearem.

-- Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta n'uma poeira azul andava um turbilhão de bichos. Outras arvores fluctuavam na mesma poalha e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe -- e que encanto aquella companhia sempre presente e amiga! -- o fio do rio chalrava. Folhas cahiam e iam devagarinho viajar sobre a agua verde. Para onde?.... Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raizes quantas vidas protegi e defendi!... As minhas raizes tocavam na vida!... As vezes cahia um pé d'agua, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de sol, para me enredar -- e o sol traz consigo um cheiro a terra e a renovo que consola, o halito dos montes e dos pinheiros meus amigos.

Nas temporadas funebres em que a agua cahe a golphões, a gente concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os bichos na terra tremem de frio sob as raizes e as folhas seccas estalam e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a nevoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da tarde levanta se dos campos um lindo luar azulado que sóbe e se dispersa. É a nevoa. Baba d'oiro luz na agua e os choupos são sombras. Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois poentes doirados... Porque é que me ponho a pensar e a scismar? Ha tanto tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Ha-de ser do luar... Oh se ainda houvesse luar!

As mulheres callaram-se. Não ha ruido. Ellas proprias sonham. Em torno da meza, na cosinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas pensam decerto n'um lar e bebem as lagrimas que cahem no vinho e o gelam.

-- A esta hora a minha mãesinha ha-de por força pensar em mim... -- começa uma.

-- E tu porque não foste consoar com ella?

-- Punham-me fóra! queriam-me lá!... Meu pae, meus irmãos...

-- Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Ássam-se pinhas no lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs pequeninas!...

E suffocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:

Se vires a mulher perdida...

-- Raparigas é o fado... De que serve agora chorar? Ninguem foge ao seu fado.

-- Á noite a minha mãe aquecia vinho e dava-m'o na cama. Sempre a gente é creada para uma vida! Quem adivinha?

-- Calla-te!

-- Eu era o miminho de todos, eu...

-- Só eu nunca tive mãe, de mim ninguem se importa! Acabou-se!

Na escuridão as cinzas que restam n'um lar, fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor suffoca. Assim o Predio ao abandono, sob a enxurrada, parecia scismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parára tragico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.

Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se ajuntam friorentos em torno d'um lume que não aquece; natal dos sêres que a desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jámais se apaga: -- Ámanhã! ámanhã!...

Que poesia tão triste não vae cahindo como um chôro sobre aquellas almas de miserrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!

N'uma trapeira o gato pingado quer dizer: -- Amo-te! -- mas foi sempre tão nú que não sabe exprimir o que sente.

Na alma d'aquella creatura humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fizera se um clarão. Tal o espanto enternecido d'uma pedra, a que uma raiz se apega e que a olha deitar flôr na primeira primavera. -- Fui eu, apezar da minha seccura, pensa o calhao, que a trouxe no meu ventre.

Sem falar, bebem juntos, elle e a Rata o mesmo vinho. Elle diz:

-- Ambos somos desgraçados e sósinhos.

O vinho que havia aquecido dá-lh'o com um pedaço de pão. Ella olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois alguem que a amasse?...

-- Bebe.

-- É tão bom a gente estar junta.

-- Não se tem frio.

-- Esta noite sabes?... Lembro-me de minha mãe... Porque seria que ella me engeitou?

Fóra choram. A Rata ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôz fóra da porta e que chora e pensa:

-- E se eu me deitasse afogar?

Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, misera, rota, resequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:

-- Deus te crie para boa sorte...

Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.

Meia noite! meia noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se transforme em vida, que é necessario? Torrentes de chuva, oceanos d'agua. Eis a vida... Para que do que é materia algo de radioso irrompa, que é preciso? Um atlantico de lagrimas.

Da materia tem nascido á custa de gritos, de fibras torcidas, o immorredoiro espirito. Atravez das edades elle se creou, atravez da dôr veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dôr é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte ha sempre gritos. A dôr ara o céo cheio de estrellas e os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? D'estes pobres espesinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas -- humus, amalgama, protoplasma, espirito lacteo, d'onde se constroem os mundos. Na valla commum os seus corpos, cansados de soffrer, são a vida da terra: as arvores, o pão, as fórmas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dôr que se sustenta Deus.

Maio de 1899 -- Janeiro de 1900.

Appendix A

Note:

Estes pedaços são arrancados ás reflexões philosophicas do Gabiru, a que elle chamou A Arvore. A Arvore porquê? Porque com ella germinaram, deitaram grandes ramos, raizes subterraneas e fundas. A Arvore sustentou-se de desgraça. As suas raizes alimentaram-se d'este humus--a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos. Damos aqui alguns pedaços do livro, o necessario apenas para se vêr a transformação do Gabiru, pelo contacto com os sêres humildes e a dôr, promettendo publical-o mais tarde com a sua conclusão.